Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

NÓS PÓS parte 24 - Dia 08/07/09, 20h

Produção Nós Pós segue com calendário de eventos (todas as segundas quartas-feiras de cada mês) no Bar Burburinho. O próximo será agora dia 08/07/09, ás 20h.

É a continuiadade da proposta de divulgar escritores e demais artistas pernambucanos, incentivando o consumo, a visão crítica e a interligação entre as linguagens artísticas.

Neste evento teremos a escritora e integrante do recém formado grupo Dremelgas Cláudia Trevisan, que fará uma apresentação envolvento literatura e música; Jhonatan Sodré (também integrante do grupo Dremelgas) e Ana Maria Pereira, integrantes da produção Nós Pós.

O tom musical do evento continua com performances de Léo Zadi, poeta e músico com influências nordestina e indiana. Léo está se preparando para lançar seu primeiro livro de poesias: "Vejo com as mãos, toco com os olhos". No evento apresentará fragmento de seu espetáculo "Casa-placenta, Rua-redemoinho", que inclui versos, canto e dança.

Seguimos com a participação de Carlos Gomes e Fernanda Maia, estudantes de Letras que assinam com os heterônimos Júlio Rennó e Amélie Marie; formam a Banda Adiós Poeta, onde cantam músicas autorais em português, espanhol, francês e inglês. Estão escrevendo um livro de contos ilustrados: "Primeiras Estórias: Jack fareja, Fellini sonha e Ninguém escreve". Na apresentação irão tocar canções da Adiós Poeta.

Pra fechar o grupo de convidados teremos performances do Poeta Jorge, num trabalho de parceria baseado no improviso com o músico Arielson, e as performances do escritor Bruno Piffardini.

A apresentação fica por conta da escritora e atriz Adélia Coelho (Flô).




SERVIÇO:


NÓS PÓS parte 24
Dia 08/07/09 20h
Bar Burburinho (Rua Tomazina, 106 - Bairro do Recife)
Couvert R$ 3,00

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

NÓS PÓS NA FACULDADE FAMA







O poeta Jorge do Improviso




Jorge do Improviso



O poeta Miró




Os poetas Miró e Jorge





Os músicos Arielson, Allen e o poeta Miró





A escritora Gizelle Aguiar




Gizelle Aguiar




A escritora Renata Santana




Renata Santana




Os músicos Arielson e Allen Jerônimo




Escritores convidados, Produção Nós Pós e organização do evento: Roberto Queiroz, Alexandre Melo, Thaltama Lemos, Danuza Montenegro, Jorge, Zahdoque, Giselle Aguiar, Arielson, Allen Jerônimo, Ana Maria e Miró.



Mais fotos no Álbum Nós Pós no orkut

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

























Jesus é fiel


Na casa onde Jesus é Fiel
Maria traiu João
Ainda que
Segurando a saia
Com uma bíblia na mão
Na casa onde Jesus é Fiel
O Sport é imortal
E Uma Maria
De carne e osso
Comia O Compadre Juvenal.

Renata Santana

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

NÓS PÓS PARTE 23 (10/06/09)

































O Nós Pós parte 23, realizado quarta-feira, dia 10/06/09, no Burburinho deu
um show de entretenimento de qualidade. Não teve jogo do Brasil certo! Pontos para a escritora, atriz atriz e membro do grupo Vozes Femininas Silvana Menezes, pro escritor Johnny Martins, pro escritor e blogueiro Arthus Nunes, pro stand up comedy e escritor Sr. Xavier, pro escritor Gustavo Arruda e pro ator Eduardo Gomes, que interpretou os textos de Gustavo. Também pra apresentadora convidada, a escritora e jornalista Renata Santana.

Segue algumas fotos do evento e alguns textos apresentados pelos convidados.


Apresentação: Renata Santana


(foto por Magda Silva)


Bicho Hospedeiro

Desmantelo
Mantê-lo
(Nesse bicho hospedeiro),
Amor.
Arranhava as cortinas da sala

Bebia no meu copo
e não limpava os pés
pra pisar na minha alcatifa.
E voltou,
Esqueci a porta aberta e voltou.
Não trouxe de nenhuma cor, mas se sentou.
Não trouxe tapeçarias de algum valor
E foi ficando.
Era o mesmo amor
o mesmo cheiro

e o papagaio no quintal nem estranhou.
Tudo ficou silêncio.
Eu fiquei estranha
Sem saber onde por mãos
E chaves.
Nada fiz com as chaves.
Arranquei todas as portas e grades
Mapeei entradas e saídas e disse:
-Se ficas na minha vida,

Pelo menos compre pão
(Porque os outros o diabo amassou).
Primeiro me penetrou.
Depois bebeu meu sangue quente.
E eu,
de dona
Me fiz seu inquilino
Novamente.




Hora e Ofício

A língua invade

E só a ela cabe

Porque só ela cabe.



Tabu


Sobre coxas, falo.

Sobre conchas, abro.

Sobrecu,

Corto fora, tempero a galinha e boto no fogo.


Lição de Casa


Vo-vô-viu-a-U-va

E também a vulva,

Da viúva.



Johnny Martins



Joh era daquela qualidade de gente carente de bom-senso, tá ligado? pois muito bem, Joh distribuía seu número de telefone à torta e à direita e, portanto, não estranhou quando recebeu, numa noite de densa chuva, uma mensagem de um "número desconhecido" em seu celular. perguntar o nome lhe pareceu deselegante e pouco atencioso. ocorreu, então, a seguinte seqüência de mensagens:
[no. desconhecido]: e aí, Joh, o que vc tá achando desse frio?
[joh]: queria esquentar as coisas por aqui!
[no. desconhecido]: pois é, o cobertor não tá mais dando conta!
[joh]: e então? tô em casa!
[no. desconhecido]: vc não quer abrigar um menor descamisado?
[joh]: "descamisado", sim! "menor", não!
[no. desconhecido]: risos. tem razão. tô morrendo de frio! que sugestões vc me dá?
[joh]: venha aqui para conhecer as alternativas!
[no. desconhecido]: proponha as suas e eu proponho as minhas!
[joh]: venha! vamos quebrar esse gelo!
[no. desconhecido]: olha que eu vou, mesmo não tendo mais carro!"
[joh]: pois venha! já tô demitindo esses cobertores incompetentes!
[no. desconhecido]: aqui na minha casa tem um picador de gelo ótimo!
[joh]: e vc mora onde mesmo?
[no. desconhecido]: tô em Jardim São Paulo ainda.

após 10 minutos sem resposta:
[no. reconhecido]: o que houve? o frio congelou seus dedos?

moral da história [ou: "se conselho fosse bom"]: sabe aquele seu ex-namorado-filho-da-puta-cafajeste? pois bem, antes de deletar o telefone dele do seu celular, certifique-se de que ele também fez o mesmo com o seu!



Ela cantava. Ele olhava a rua deserta da janela do edifício, fumando um cigarro, existencial, tenso, cansado, era noite. Mas ela cantava em algum lugar de outra varanda. A voz era afinada, tocante. Ele ouviu: "... você deságua em mim, eu oceano".
Os carros passavam ruidosos, cortando os versos. Ela cantava como se aquela noite barulhenta, aquela solidão noturna e aquele frio fossem seu momento mais doce. E ele desejou aquele mesmo momento dela para si. Tanto que em seus ouvidos calaram os carros, a noite ficou cheia de possibilidades mornas. E então, querendo compartilhar aquele amor tranqüilo pela noite, pegou o telefone:
-- Alô!
-- Oi! Sou eu! Escuta, deixa eu ler uma coisa aqui pra tu: "Ela cantava...".

Mais textos de Johnny Martins em Risco no Tempo.


Sr. Xavier


(foto por Magda Silva)

“A MENINA E A MESA”

Eram quase duas da manhã, eu estava sem sono algum, sentada na sala vendo TV... Estava só, já estava acostumada a ficar só em casa, minha mãe costuma sair e passar noites fora de casa, meu pai? Ele faleceu num acidente de carro quando eu tinha apenas 8 anos, vi minha mãe sofrer muito com isto. Certo dia, mais ou menos 3 anos depois da morte de meu pai, lembro que uma amiga de minha mãe disse-lhe: “você precisa encontrar outro homem, isto não quer dizer que você não o tenha amado, mas que você se ama também...” naquela noite vi que minha mãe tinha aceitado o conselho da amiga, ela chegou em casa acompanhada, era um homem alto, meio gordo... mas mesmo assim bonito, educado parou para me cumprimentar mesmo com minha mãe reclamando por eu estar acordada naquela hora. Fui para meu quarto mas não consegui dormir, chovia fazia frio e eu pela primeira vez em minha vida desejei um homem ao meu lado, não sei se foi porque vi minha mãe acompanhada depois de tanto tempo ou se era porque eu já estava com 13 anos e nunca tinha sequer beijado na boca de alguém...

- O que você fez para conter o desejo?

-Conter o desejo? Quem gosta disso? ...Você gosta de se conter? Aposto que não, ninguém gosta, eu só obedeci o que vinha de dentro, agarrei um travesseiro que eu tinha, lembro que ele tinha as bordas meio firmes, daí já sabe o que eu fiz não é!?

-Você se masturbou?

-Pela primeira vez... você nem pode imaginar como aquilo foi prazeroso, me imaginava sendo agarrado por braços fortes de um homem cheio de tesão por mim... mas ao mesmo tempo desejava ter meus lábios entre os seios fartos de uma mulher de pele morena, bronzeada, sedosa...

-Sério? Você desejava uma mulher enquanto se masturbava?

-Também achei estranho depois... mas a cada vez que me masturbava pensava na mesma morena.

-Alguém que você conhecia?

-Não, pra ser sincera, uma morena que até hoje nunca a conheci.

-E você criou o habito de se masturbar ou era raro fazer isto?

-Raro? Raro era eu parar... só diminuir a quantidade de vezes que me masturbava quando perdi minha virgindade, mais ou menos um ano depois.

-Você transou pela primeira vez aos 14 anos?

-Ahan...

-Pode falar sobre isto?

-Claro. Era dia, umas 10 da manhã, lembro de ter fugido do colégio com um garoto, estudávamos na mesma turma, a esta altura já tinha beijado, não ele, mas já tinha beijado... fomos para um terreno baldio aos fundos do colégio, lá tinha uma meia casa em construção, que estava abandonada fazia tempo, aconteceu lá... não foi muito bom ele tinha 14 ou 15 sei lá, só sei que também era virgem, estava mais nervoso que eu. Eu praticamente tive que fazer tudo sozinha, não doeu, não sangrou, não tive orgasmo, não foi prazeroso, e acho que ele nem gozou direito, mas mesmo assim foi minha primeira vez e eu lembro com carinho.

- E depois disto? Como vocês agiam?

- Come se nada tivesse acontecido, nunca mais tivemos nenhum contato alem de conversas de colégio.

-E depois disto, como ficou sua vida sexual?

-Transei mais umas duas vezes no mesmo mês, uma vez com outro garoto do colégio, de outra turma, mais velho um pouco e a outra vez com um desconhecido que encontrei na condução indo para casa de uma amiga, deixei de fazer o trabalho do colégio para transar... eu queria a todo custo ter um orgasmo.

-Você não teve medo de transar com um desconhecido?

-Sendo sincera um pouco, afinal sei lá quem era o cara, em momento algum perguntei seu nome, só sei que ele deveria ter uns trinta anos... tudo começou na condução como eu já disse, estávamos sentado um ao lado do outro ele não parava de olhar minhas pernas, eu estava de bermuda, meio apertada não era short mas também não muito longa, percebi que ele me olhava de forma a me desejar, deixei que me “devorasse com os olhos” até que ele viu que eu estava percebendo tudo, daí ele chegou perto e com uma voz baixa e tranqüila me disse: “Que bela ninfeta é você... quer brincar um pouco comigo?” depois desta cantada barata, eu tinha duas escolhas, dá um tapa nele gritando “taradoooo” e deixar que as pessoas da condução o linchasse ou acreditar que ele poderia me dar um orgasmo...

-Você teve um orgasmo neste dia?

-Nunca tive um orgasmo com homem nenhum.

-Depois dele você relaxou ou continuou procurando este enorme prazer em outros homens?

-Relaxei. Achava que estava meio nova e que só iria conseguir quando tivesse ao menos uns dezessete por aí.

-Quanto tempo você passou sem transar?

-Quase um ano.

-Mas se masturbava ou não.

-Raramente. Agora raramente... até que comecei um namorinho com um primo de uma amiga do colégio. Foi meu primeiro e único namorado, acho ate que ele me amava, ficamos juntos por oito meses, foi aí que transei de novo, foi durante nosso namoro, ele tinha dezoito anos.

-Você gostava dele? Sentia tesão por ele?

-Muito e muito. Mas mesmo sentindo tesão por ele não conseguia gozar.

-Porque vocês acabaram o namoro.

-Foi nesta época que minha mãe foi transferida pela empresa que ela trabalhava, ela foi promovida, virou gerente regional, daí tivermos que nos mudar para outro estado.

-Sua família sempre foi você e sua mãe, mas sempre foi bem estruturada financeiramente falando não é?! Ao menos é o que parece.

-Meu pai tinha um bom emprego, e quando morreu ficou uma boa pensão para mim e minha mãe. Minha mãe também tinha um bom emprego numa multinacional, sem duvida nunca tivemos nenhum problema financeiro. Mas porque você falou nisto? Você acha que o fato de eu ter sido, digamos “rebelde” teria algo a ver com dinheiro?

-Não, creio que não... mas vamos continuar. Quando você começou a ter prazer de verdade com sexo?

-A pouco, já estava com uns 20 anos, foi quando eu já estava me prostituindo... mas bem antes disso veio um orgasmo.

-Espera, você me disse que nunca tinha tido um orgasmo.

-Nunca com homens, nem mulheres... por mais inusitado que pareça meus poucos orgasmos foi com uma mesa.

-Uma mesa! Como assim?

-Em meu quarto tinha uma mesa encostada na parede que eu usava para estudar, a mesa já era meio velha estava ali desde a época em que eu era uma guria. Para que eu não me machucasse minha mãe colocou nas quinas dela uma proteção de borracha. Certo dia eu tentava pegar um livro que estava numa prateleira na parede que a mesa estava encostada, como sou baixinha não alcançava devido a mesa estar no meio do caminho, fazendo com que eu ficasse afastada da parede e mais longe da prateleira, ao me encostar na quina da mesa percebi que a proteção de borracha que estava ali à anos encostou de forma gostosa no meu clitóris, neste momento percebi que poderia me masturbar usando a quina da mesa. Esqueci o livro, larguei o que estava fazendo, tranquei a porta, tirei minha roupa e tive meu primeiro orgasmo.

-Usando uma quina de uma mesa?

-Sim.

-E o que você pensou enquanto se masturbava com a mesa?

-Adivinha?

-Sei lá.

-Em uma linda morena de seios fartos, pele bronzeada e sedosa. E assim continuou, toda vez que eu me masturbava com a mesa, pensava nesta mesma morena, pensava que no lugar da quina emborrachada da mesa estava seus dedos e lábios, e era assim que eu conseguia ter orgasmos, e ainda é.

-Você ainda usa a mesa para se masturbar?

-Sim. Ainda uso.

-quando isto começou você tinha uns 15 ou 16 anos não era?

-Sim mais ou menos isto...

-Agora você esta com 26. mas me disse que começou a ter prazer no sexo aos 20, quando já se prostituía, podemos falar sobre isto?

-Sim, podemos sim...

-Fale sobre o que quiser desta época, me diga quanto tempo você se prostituiu...

-Começou aos 17 anos, logo após a historia com a mesa... já tinha ido morar sozinha, noutra cidade onde eu iria estudar, tava entrando na universidade, bacharelado em geografia... nossa, da vontade de rir em pensar que escolhi este curso... mas enfim, sem ter um porque me veio a vontade de transar novamente com um desconhecido, daí resolvi colocar um anuncio no jornal, com um nome falso, só para ver se desta vez conseguiria ter prazer, em pouco tempo eu estava fazendo entre 8 e 12 programas por semana, eram jovens, velhos, mulheres, casais, todo tipo que você possa imaginar. Eu nem pensava no dinheiro, ate hoje tenho boa parte guardado, nem sei o que vou fazer, então os programas começaram a ficar gostosos quando numa bela noite eu tive a brilhante idéia, enquanto transava com um velho barbudo pensei na morena, aquela mesma morena, foi aí que descobrir um jeito de ser prazeroso pra mim.

-Nossa, esta morena realmente deve ser incrível... mas me diga, se você foi morar sozinha, como ficou sua mãe?

-Minha mãe continua morando na mesma cidade, ela e o Tony, estão super bem, e como você deve imaginar ela não sabe de nada.

-Quem é Tony?

-Tony é o namorado dela, que eu lhe falei, que eles ficaram juntos quando eu tinha 13 anos...

-Sei, sei... é bom saber que ainda estão juntos. Mas para não fugir do assunto, me diga quando você resolveu parar de se prostituir?

-No ultimo sábado, e é por isto que estou aqui.

-Desculpa mas eu não entendi... quer dizer que você procurou um psicólogo porque parou de se prostituir?

-Não exatamente. Quero saber se existe alguma possibilidade de você me ajudar a esquecer a morena. Não agüento mais pensar nela sempre que transo... não agüento mais só conseguir um orgasmo com uma quina emborrachada de uma mesa velha, e mesmo assim pensando na mesma morena... por favor você precisa me ajudar, você precisa tirar isto de minha cabeça.

-Não é tão fácil, eu não posso simplesmente tirar um desejo que existe à mais que 10 anos.

-Então o que eu posso fazer? Continuar me prostituindo desejando ter um orgasmo e pensado na morena?

-Você sempre se sentiu muito tranqüila quando o assunto é sexo não é?!

-Eu acho que nunca senti vergonha com nada.

-Ok, creio ter uma solução para seu caso...

-Serio?!

-Eu não acredito que você não percebeu ao entrar em meu consultório...

-Percebi o que?

-Rita você pode vir aqui por favor!

-Rita é sua secretária não é?

-Sim Dr. Augusto?

-Rita esta é a Malu, uma paciente que já é uma grande amiga, gostaria que vocês se conhecessem.

-Prazer Rita...

-O prazer é todo meu Dona Malu.

-Me chame só de malu por favor.

-Como quiser. Com licença vou atender o telefone.

-Você entendeu agora Malu?

-Nossa eu não tinha percebido... não tinha prestado atenção na sua secretaria, é...

-É sim. É a morena que você tanto falou. Seios fartos pele bronzeada e sedosa.

-Sim mas o que você quer que eu faça? A convide para sair?

-Porque não?

-Eu sou uma mulher, ela não aceitaria.

-Aposto que aceitaria.

-Serio?!

-Sim, você faz o tipo dela... sei que estou sendo antiético, mas quero solucionar dois problemas ao mesmo tempo, você precisa desta morena, e a Rita precisa de alguém que tenha atenção por ela.

-Você é mais louco do que eu pensava.

-Não... só estou agindo como um amigo das duas, agora n sou mais um psicólogo, sou um amigo querendo ajudar, sei que posso estar fazendo algo errado, mas é esta a realidade, quero ver vocês bem.

-E agora se eu n fizer algo, não vou mais parar de pensar na Rita, vim aqui para parar de pensar na morena, agora vou é ficar com ela mais ainda na cabeça...

-E o que você vai fazer?

-Falar com ela, ser eu mesma. Você pode chama-la para mim?

-Sim, claro. Rita a Malu quer falar com você.

-Algo que eu possa ajudar Malu?

-Posso lhe fazer uma pergunta Rita?

-Claro que pode, fique a vontade.

-Quer transar comigo?



Arthus Nunes


(fot por Magda Silva)

O que quero?!

Quero correr pelas madrugadas.
Amar, viver, constranger.
Comer uma bela picanha depois de me tornar uma só carne.
Quero Carnaval sem fim.
Ouvir frevos, cirandas, caboclos, maracatus em tambores silenciosos
fazendo meu coração parar e batucar em seu ritmo.
Quero ler eternos livros feitos de vida, ou impressões dela.
Quero escrever sentimentos não tão claros quanto os papeis que vão exibi-los.
Quero ser maior. Fazer minha voz ecoar pelas terras secas, e também nas mal educadas, de meu pais.
Quero compartilhar minha vida e felicidade com as pessoas que me amam.
A propósito, quero sim ser amado.
Quero ouvi-la sussurrar segredos em plena madrugada em meus ouvidos.
Quero enfrentar medos, e vence-los.
Mas também quero perder.
Perder para as minhas vontades, realizando tudo o que quero.



Maré

Às margens do capibaribe
escrevo-me em papel.
Tentando calar o mundo
E ouvir a solidão.

Às margens do capibaribe
Reflito-me em águas calmas.
Tentando enxergar tantas
imagens prateadas e turvas.

Às margens do capibaribe
Espancava-me o vento.
Tentando levar embora a dor
deixando-me apenas os pensamentos.


Poemetos

Os poemas que não li são mais profundos
Atingem a alma sem ter a mente como intermédio.

Os poemas que ainda não li mostram tudo que ei de saber
São completos e satisfatórios em sua forma. (Indiferentes ao mundo lá fora)

Os poemas que ainda não li falam mais ainda de mim
Esses poemas não raros são os que ainda não escrevi.


Mais textos de Arthus Nunes em jovemmisantropo.blogspot.com



Silvana Menezes


(foto por Magda Silva)



Ator Eduardo Gomes / Gustavo Arruda


O ESPORRO DO ESTUPOR
(Gustavo Arruda)

Tenho um compadre cabuloso que só. Um porre!

Cheio de nó pelas costas, amarrado, mas estribado feito a murrinha. Encarnou bem um mês em mim, adulando pro mode eu espiar a trepeça de um computador “rochedo” que ele tinha comprado.

O cabra tava tão azoretado com o mondrongo, que passava o dia escanchado nele e a noite sem cochilar. Não arredava o pé nem pra ir no aparelho e chega ficou mofino de não comer. Até que eu criei coragem pra avoar da rede, amontar na magrela, deixar de ser tratante e não farrapar mais com ele.

Cheguei impando na casa do desinfeliz. Pipocando de suor, bufando de tão esbaforido e com a calça descosida no parreco (do esfregado da cela de mola). O compadre me deu um abano e uma meiota de garapa (pra abaixar o mormaço), conversou um tanto de miolo de pote e disse (apontando pro bicho): “Diga aí: tu visse? É cabaço!”.

O tribufu medonho parecia uma televisão encangada com uma máquina de escrevinhar. Tinha até transformador. Só que o controle remoto era apregado num fio.

Foi aí que eu atinei porque o infeliz das costas ocas não saia de riba do cafinhoto. Depois de afolozar uma ingrisia, encarcar um negócio do coisa e catucar num pitoco, começou a passar a calunga se bulindo de uma rapariga (amostrando a periquita) e a estampa de uma quenga com a saia alevantada (aparecendo o oiti).

Bem nessa hora chega a nêga véia dele, desplanaviada (saída não sei de onde), e danou-se foi tudo! Era uma sarará caraôia (zarôia) e guenza, com um dente faltando, o outro cariado, o nariz de porrote e buchuda, mas braba que só um siri na lata (parecia uma capota choca) e berrando feito uma gasguita. Avalie.

Deu-lhe um muxicão e um esporro do estupor, avacalhando o miserento com gosto de gás: “É por isso que tu num quer xumbregar mais eu! Né, estrupício?”.

Fiquei meio aguado (todo empulhado e amojado), tapeando pela beirada do birô e me fazendo de alesado (pro bafafá não sobrar pra mim), sem poder acudir. Mas tu pensa que depois disso o sonso (cara-lisa) do maluvido se aperreou?

Largou foi da mulher, mas não deixou o computador nem com a pleura!

Do livro "Deu com a pleura! matutices da cidade grande", de Gustavo Arruda (Zit Editora) http://www.deucomapleura.com.br



EM BREVE MAIS FOTOS E TEXTOS DO EVENTO.

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009


Mais um site que valoriza e divulga a cultura pernambucana.
Confira: VETOR CULTURAL

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

NÓS PÓS DE VOLTA AO BURBURINHO DIA 10/06/09





































Produção Nós Pós – Português Suave volta a realizar evento após dois meses da última apresentação, na Livraria Saraiva Megastore. O evento, que acontecerá dia 10/06/09 às 20h no Bar Burburinho (Rua Tomazina, 106 – Bairro do Recife), continua a proposta de divulgar escritores e demais artistas pernambucanos, incentivando o consumo, a visão crítica e a interligação entre as linguagens artísticas.
O evento conta com a participação da escritora, atriz e membro do grupo Vozes Femininas Silvana Meneses, os escritores Johnny Martins, Arthus Nunes, Rodrigo Feitosa, Sr. X e do ator Eduardo Gomes, que interpretará textos do livro Deu com a Pleura do escritor Gustavo Arruda (o livro deu origem à peça de mesmo nome cuja estréia Eduardo Gomes fará em agosto no Teatro Apolo, dentro do Festival de Teatro Estudantil). A apresentação fica por conta da escritora e jornalista Renata Santana.

O Nós Pós é um projeto que tem por vocação divulgar a literatura e demais manifestações artísticas feitas hoje no estado de Pernambuco, incentivando o consumo e a visão crítica sobre essas criações, além de estimular a interligação entre todas essas linguagens, em prol do fortalecimento e do desenvolvimento de nossa cultura.
Acesse o blog do projeto para mais informações sobre o projeto e sobre a cena literária de Pernambuco: htt://nospos.blogspot.com



SERVIÇO:
Nós Pós – parte 23
Dia 10/06/09 – 20h
Bar Burburinho (Rua Tomazina, 106 – Bairro do Recife)
Couvert: R$ 3,00



CONTATOS:
Alexandre Melo
alexandremelo@nospos.org
(81) 8711 3581

Ana Maria
anairam@nospos.org
(81) 8729 0368

nospos@gmail.com

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

CurtPE: Divulgando a cultura pernambucana


Pra quem se liga em cultura pernambucana, vale a pena conferir o site do CurtPE e conferir notícias, programação cultural, entevistas e outras informações sobre o que rola no estado.

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Video teaser



Video teaser do Nós Pós realizado pela produtora Sete Filmes.

Veja mais vídeos aqui.

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

1º ENCONTRO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA FAMA

















NÓS PÓS NO 1º ENCONTRO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA FACULDADE FAMA

A produção Nós Pós foi convidada para participar do I Encontro de Comunicação Social, realizado pela Faculdade Fama.

O Nós Pós se apresenta dia 08/05/09, às 10h20.

A Faculdade Fama fica na Rua Benfica, 126 - Madalena.

A entrada é franca.


Notícia

Fama realiza encontro de comunicação acadêmica

Pela primeira vez, alunos de publicidade e propaganda poderão expor trabalhos científicos

A Escola Superior de Marketing – Esm – tem se estabelecido na região como produtora de conhecimento científico e acadêmico, não deixando de lado as tendências do mercado. Dirigentes, professores e alunos se empenham para tornar a instituição cada vez melhor. Pensando nisto, nascem o Fala Sério (I Encontro de Comunicação Social) e Na Mosca (Mostra de Comunicação Acadêmica).

A temática central desta 1ª edição é: Interfaces da Comunicação Digital. Além das palestras, oficinas e exposição, o Fala Sério não poderia deixar de contemplar as artes e a cultura, portanto, também haverá o CurtaFama – I Mostra de Interdisciplinar de Vídeos Famosos, produzidos por professores e alunos e uma mesa redonda sobre cinema e ainda a apresentação de grupos artísticos locais. “Pensamos a educação de uma maneira holística, integradora e interdisciplinar, sem criar modismos.”, diz o prof. Jademilson Silva.

O evento conta com a participação ativa dos alunos dos três primeiros períodos do curso de Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda, além do apoio institucional da Direção Acadêmica e Coordenação do Curso.

Matéria completa

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PROGRAMAÇÃO

Curso: Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda
Organizadores: Edigilson Albuquerque, Jademilson Silva, Zadoque Filho
Alunos da P1, P2, P3 da Manhã

I Fala Sério
I Encontro de Comunicação Social

Tema: Interfaces da Comunicação Digital
Dias:
de 04 a 08 de maio de 2009
Local:
Campus I da Escola Superior de Marketing – ESM (Auditório e Pátio)

-Dias: 04, 05, 06, 07 e 08 de maio de 2009

Exposição da I Na Mosca

-Dia: 08 de maio de 2009

8:00h - CurtaFama – I Mostra Interdisciplinar de Vídeos Famosos
Apresentação de vídeos produzidos por alunos de Publicidade da Fama.

09:00h – Cinema e Debate
Tema: Pernambuco em cena
Mesa redonda: Silvana Marpoara – jornalista e cineasta

10:00h - Intervalo

10:20h - Artecom – Arte com Comunicação
Evento realizado pela produção Nós Pós, com a presença dos escritores:

Gisele Aguiar

Renata Santana

Jorge - o poeta do improviso

Participação dos músicos:

Allen Gerônimo

Arielson

11:20h - Encerramento

Domingo, 3 de Maio de 2009

Texto apresentado por Wellington de Melo no Nós Pós parte 22 - Livraria Saraiva * (18/04/09)

2. ONDE

onde teu medo parede vigiada onde tua fúria fera engaiolada onde teu medo solidão sitiada onde tua fúria manhã mascarada onde teu medo desejo saciado onde tua fúria pânico alado onde teu medo só & metrificado onde tua fúria verso esfacelado onde está tua fúria de fim de semana fúria escondidinha no canto da sala fúria silenciada pelas vitrines pela campanha salarial pelo medo tua fúria beck na gaveta de mamãe tua fúria bolinhas na festa hype aquela tua fúria cara-pintada onde é essa tua fúria é essa tua fúria é essa onde está teu medo de dizer tudo teu medo de dizer sem verso sem metro teu medo encurralado pela fome pelo tudo vai ficar bem pelo tapinha nas costas teu medo de dizer na cara teu medo de dizer agora onde é esse teu medo é esse teu medo é esse.



* Este foi o primeiro da série de eventos mensais da produção Nós Pós na Livraria Saraiva.
A produção
Nós Pós fechou uma parceria com a Livraria Saraiva para realização de eventos mensais aos sábados no Espaço Manuel Bandeira, auditório da Livraria.
O próximo evento será dia 16/05/09, às 18h.

Textos apresentados por Adélia Coelho (Flô) no Nós Pós parte 22 - Livraria Saraiva * (18/04/09)

Fora de teus olhos sempre arredios
chamo com língua teu arrecifes de tédio
cada dobra do teu corpo tem cheiro de mar
Não há mais tempo para minha fome buscar a tua
porque meus ossos estão pintados de vermelho

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O percurso do corpo entre as linhas,estagna?
O percurso do sangue entre as línguas--pause--liberdade de dedos--
E minhas esposas não bebem do altar
Minha igreja também é precipício
Caem escapulários e terços das nuvens gulosas
Pecados selvagens roubam a cena
Quebrem as pernas e portas,minha ressurreição é outra!
Silêncio.Peixe.Cravo.Saudade
E a morte na saliva...a morte na saliva

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Não está vendo rapaz?meu tempo é meu sexo
pendurado,tica tac voando como passarinho desnorteado
em baixo o mundo esperando que eu caia...despenque!me desconjunte!
E isso me diz tão pouco.Tão pouco do que o meu sexo traduz.
Não está vendo rapaz?
Nem eu.

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Vejo você através dos outros olhares de espelho.
Nu,esperando-me para aprender sobre as águas que correm
nem brinquedo,nem salvação,nem contorno nem inundação.
Minha vida neste aquário é contemplação.
O que vejo?sua espera por trás de qualquer parade visível.
Minha espera através da música de nossos gemidos.

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O que encosta em teu peito
não é só o muro
as amarras,as entranhas
tampouco os laços,feridas,cobranças
o que encosta em teu mundo
é a fome do meu.
O que escuto em teu peito
é o galope de meus passos
a teimosia da figura acesa
a ideologia do armário pronto.
o que ouço em teu ventre
são meus soluços quebrados
o que sinto em teu sexo
são as veias do meu barato.
Minha droga que independe
meu desenho de baliarina
em teus dedos longos...
o que encosta sobre meus cabelos
é tua casa forrada de serpentes
é tua fonte cuspindo imensas expectativas.
o que encosta em teu peito
é o meu ,implorando
o travesseiro dos teus sonhos.

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Terei mesmo que implorar tua saliva sobre meu peito?
terei mesmo que esperar teu prazer em forma de cansaço?
terei mesmo que saber da flor a que veio sobre um bem te vi que não quer provocar?
não sei estar imersa no óleo de alguém que não surpreende as folhas
que não desencanta do hábito
que não age através do sonho.
Não sei contentar-me em descobrir sozinha as avenidas do meu corpo
e suas ruas sedentas esperando a chuva da tua boca
poderia ser qualquer outra chuva,mas é da tua boca que quero lubrificar o sono
é pela sua boca que desejo ser desenhada em pele branca
e não queria mais querer o que tem dentro da sua boca.de seu mundo em sua boca de sua fuga em sua boca
terei mesmo que ouvir o que teu corpo mudo me diz?
esta noite ele me disse em alto e bom som:dorme,que não há disposição para desvendar-te.
-Hoje não,passa outra hora, e minha cintura olhou-me triste...
que diabos estou fazendo do meu corpo?que diabos o meu corpo espera de outro?
não é o abrigo que quer alimento,é toda figura viva em mim
que precisa da descoberta e da percepção do constante desejo.
terei que esperar teus olhos nascerem de novo para enfim me olharem como esta mulher
que precisa desesperadamente ser amada?

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Reparo a fruta com ansiedade
uma mordida e todas as suas entradas propagam o sumo da vida
engulo o que escorre entre os olhos
dentro da sua boca todas as pétalas da saudade desconhecida
talvez quando deite minhas vontades



Da tua face formou-se a onda mais clara que já vi
o teu corpo erguendo a ponta da água
em tuas costas a geografia do céu
Incertas palpitações recorrem
a teus músculos de algas...
Teu Fluido canta por todos os meus pêlos
evocando os sentidos
envolve-me com tua fumaça de pedidos fôscos
há uma troca diluída neste espaço
e nossas partículas propagam
a cor exata de nosso abraço-azul
voamos atados pelo mesmo incenso perfumado.


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Quando o buraco sorrir
saberás o segredo do mundo
em alguns instantes
a boca molhada
e os pêlos pra fora
dentro de mim a invasão de toda terra
moldada em grande arco de fertilidade
dentro de mim sem querer
nasce uma violeta desmedidamente quente
que faz cocégas no útero do céu
como quem balança a estrela do olho
o brilho escorre e as côxas envergonhadas
guardam debaixo da chave
a floresta do prazer
nessa hora me chame de humano.

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devagar,bem devagar entre..
adentre a única cavidade do grande devaneio
perceba as fotos coladas na pele
e o cheiro insuportável de minha verdade
Escave,mergulhe,invada
e agora que ja encaixasse
teu olho em minha boca suja
devaste cada dente submerso em gôzo
sem pena,pesque toda saliva
que injeta meu veneno
engula,sugue
tome todo o buraco com as órquideas
que prometesse.

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imaculada espero meu par
aqui,dentro do maior buraco do mundo
as línguas enrolam-se entre si
como cobras sedentas por delírio
sementes de maçãs doentes
óvulos de gigantes que vivem
nas cruzes por detrás do olhos
minha vertente
é o suor sagrado de coisa alguma
órgão asexuado nas borboletas insensíveis
gosto e desgosto de um sal importado
doce seria a faísca que se perde
entre teu corpo
flamejando de desejos infinitos
dentro da bola de fogo o conflito
quero-te no entardecer de tuas bochechas alvas
onde o sol escorrendo
devolve-te a cor rosada das insinuações....

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Porém a cada noite os beijos que guardo
saem voando do meu pescoço
e sem medo descobre que meu sangue
é o sulco perfumado de teus ossos.

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e do azul que deforma minha cauda
revolto a causa desta morte
meu corpo animal estranho em mim
debate-se como que soubesse a distância do seu ninho
E do azul que delata meus poemas
arranco meus cabelos e presenteio o mar

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dá-me senhor, um gole de teu beijo
insana lição de barro e covardia
não nego o tempo que passei presa
dentro de minhas próprias grades
não nego que não quis teus passos
por saber me perder neles...
entre teus dedos fiz meu silêncio
que soava..soava...como assobio de mármores...
assobio de mármores
estátuas mortas de um desejo...
apenas corpos mutilados após gôzo
simples ciência do beijo...
abraço o molde de meus dias...
enbebedo-me do norte de teus vigias..
durante a noite persigo teus sonhos
como se pudesse modelar tuas carruagens..
inverno doloroso quando sabemos que o verão
não volta mais,,,não volta
mas.... agora quando já não lembro do amor
o branco é só melancolia...
quebro minhas certezas...
não reconhecem a brutalidadede minha energia
amei a um homem de pedra
que escondia os sentimentos no gessoa
mei a um homem de madeira
que desenhava sua morte em meu pescoço.

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meus dedos não ousam mais silenciar outras dimensões
se pertences a minha tontura permanente,senta-te aqui,
puxa mais um copo,e bebe desta saliva gelada
deste suor amargo,desta alma impaciente.




* Este foi o primeiro da série de eventos mensais da produção Nós Pós na Livraria Saraiva.
A produção
Nós Pós fechou uma parceria com a Livraria Saraiva para realização de eventos mensais aos sábados no Espaço Manuel Bandeira, auditório da Livraria.
O próximo evento será dia 16/05/09, às 18h.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009



Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Nós Pós na Livraria saraiva (18/04/09)

NÓS PÓS NA LIVRARIA SARAIVA

Da concretização da parceria Nós Pós / Livraria Saraiva em prol da divulgação da rica gama de escritores contemporâneos pernambucanos culmina a realização de eventos mensais.
A sua primeira apresentação no Espaço Manoel Bandeira da Livraria Saraiva MegaStore - Shopping Recife ocorreu dia 18/04/09, às 18h, e foi um grande acontecimento que contou, como sempre, com a fidelidade de seu público, que se surpreendeu com as performances dos escritores convidados. O evento contou também com a presença de Alexandre Santos, presidente da UBE.

O
s escritores convidados para esta edição foram:

Wellington de Melo: "Uma leitura furiosa e aterradora" do primeiro volume da primeira versão do seu livro "O peso do medo, 30 poemas em fúria".

Adélia Coelho: Os poemas registrados em blog da escritora e atriz foram interpretados por ela, propondo intervenções de improviso à platéia, num tom sussurrante, misterioso e erótico.

Silvio Hansen: Poeta e artista visual, fez exposição de poemas visuais e recital de seus textos.

O Nós Pós teve início em setembro de 2007 e é um projeto cultural com foco principal em literatura, mas que dialoga com as demais linguagens artísticas feitas hoje no estado de Pernambuco. Realiza eventos que contribuam para o desenvolvimento de escritores e demais artistas na interligação entre todas as linguagens, em prol do fortalecimento e do desenvolvimento de nossa cultura.



SERVIÇO:
Nós Pós Parte 22 - Saraiva
Livraria Saraiva Megastore – Shopping Recife
18/04/09 – 18h
Entrada Franca

Domingo, 22 de Março de 2009

Textos apresentados no Nós Pós parte 21 - Sorveteria Santo Doce (19/03)
























LUCIA MOURA


Mateus

Pois é, velório continua sendo minha diversão preferida. Não aquela coisa doentia. Essas taras que existem por aí. Não. Apenas resolvi tornar agradável a coisa mais chata do mundo.

Mateus, meu grande amigo, faleceu no domingo de carnaval. Péssimo dia para quem é carnavalesco. Mas isto não vem ao caso - ninguém escolhe data para morrer - é destino de cada um.

Se pelo menos ele tivesse morrido de manhã, tudo bem, à tarde já teria sido enterrado e a galera tava liberada para continuar brincando. Mas não. Ele morreu exatamente na hora da Ave Maria: boca da noite, seis horas. Pegou o pessoal desprevenido. Quase todo mundo de porre. Um vexame.

- Ligaram para Fernanda? Ela foi para o acampamento.

- Ainda não.

- E Antonieta? Tadinha. Ainda agora ela estava lá na Ema. Bebinha, bebinha... E Norminha?

- Déia ficou de avisar. Ela pegou a agenda de Mateus. Só tem nome de mulher. Vai ser novela pra quem não conhece bem o falecido descobrir qual delas é a viúva principal.

- As viúvas você quer dizer.

Lá pelas dez da noite, o velório começou a ficar animado. Chegavam em bando ou sozinhos.. A mulherada muito bem representada. O primeiro time – o das viúvas – uma beleza. Todas as tribos, raças e credos. Uma festa.

Lurdinha, a viúva anterior, estava sentada do lado direito do caixão. Dalva, a última no esquerdo. Mas, tinham outras: Maristela, Vandinha, Tônha, Ledinha, Zenaide. As letras do alfabeto, eu acho. Coitadas choravam feito umas desenganadas.

Valdo chegou vestido de conde. Estava desfilando no Flor da Lira. Elisa saiu do Maracatu direto para o velório. Tão bonita com aquela roupa de rainha. Lágrimas escorriam pela face, morrendo no canto dos lábios. Arrepiei. Sempre achei aquela mulher um tesão. O falecido era mesmo um cara de sorte. Liso, tudo bem, mas sortudo, isso sim.

- Quer um café?

- Preferia uma lapada.

Alguém teve a brilhante idéia. Pegou numa barraca próxima do cemitério uma garrafa de cana. Era no gargalo mesmo. Sem frescura. A primeira terminou logo. Eugênio fez uma cota e trouxe logo duas e de quebra o tira-gosto: limão e caju. Cortadinhos. A mulher da barraca era jeitosa ou conhecia o falecido. Tava bem feito demais.

Devia ser meia noite ou pouco mais quando a freira entrou. Pensei que era fantasia. O traje sem graça me chamou atenção. Olhei duas vezes. Era freira de verdade. Que eu soubesse, Mateus não era chegado à igreja e nem tinha parente que fosse. Quem seria?

Olhei pro relógio: uma hora. Ninguém prestava atenção a nada: estavam derrubados. A freira ficou por ali rezando e quietinha encostou-se num canto.

Às duas da manhã o velório foi esvaziando. Os bêbados demais dormiam. As mulheres pareciam mais conformadas. Maristela me cutucou:

- Quem é aquela ali?

- A de hábito?

- Sim.

- Sei não.

- Estranho. E aquela outra? A que está atrás do caixão.

- Também não sei.

- Espera aí, não é Paixão?

- Não estou bem certo.

- É a própria, sim senhor. Reconheci pelo jeito pegar no cabelo.

- Tem razão é ela mesma, e agora loura.

Maristela foi embora. Antes, deu um jeito de falar com a desconhecida. Lá pela tantas, Abigail, viúva das mais antigas, resolveu diminuir a luz do salão. Era para a turma descansar. Precisavam. O dia seria longo o enterro estava marcado para as três da tarde. Àquela altura tinha pouca gente, a viúva da esquerda e a da direita saíram de seus postos e se recostavam uma na outra. Ledinha sentou-se perto da entrada do velório, duas outras pessoas que não dava para ver direito, na outra entrada. A freira continuava no mesmo lugar. Rezando. Paixão fumava lá fora. Não falara com ninguém. Sempre fora esquisita.

O silêncio agora era total. Na penumbra, vi a freira chegando para bem perto do caixão. Foi se recostado mais e mais. Curioso. Espichei o pescoço à procura de um ângulo melhor. Vi a mão esquerda acariciando os lábios do falecido. A outra estava por debaixo das flores. Não era impressão: ela apalpava o corpo inerte. Bolinando o defunto. Os movimentos eram ritmados. Será que eu estou bêbado? Aprumei a vista. Não, era a mais pura verdade. Ia e vinha que nem onda.

O mar foi ficando bravio. De repente Paixão entrou de mansinho no velório e parou junto ao caixão bem próximo da freira. Chegou-se mais. Pega de surpresa, ela soltou um leve gemido de gozo e susto. Ainda trêmula deu uma geral. Nem percebeu que eu prestava atenção à cena. Foi se encostando mais e mais na mulher que estava atrás dela. Os seios rígidos da outra pareciam querer-lhe furar o hábito. Notei a feira arqueando o corpo. As duas entraram em compasso: ritmo frenético. Mãos e corpos. Esfreguei os olhos - eu não estava dormindo e muito menos bêbado.

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Amêndoas glaçadas de marzipã.

Olha mais uma vez a mesa pronta para a ceia. Quatro lugares: dois em cada lado. A toalha branca de damasco realça a louça inglesa. Taças de cristal vermelho fazem par com o arranjo de rosas que repousa no cento da mesa em uma floreira de murano. Baixo, do jeito que eu gosto. Não deve interferir na conversa. Preciso fitar cada um. Ver seus rostos, perceber os trejeitos. Mania antiga esta minha. Lembro de Carlos, o olhar frio, mas o leve tremor no canto da boca denuncia a insegurança.

Toca os talheres de prata. Foram de mamãe. Alisa o guardanapo. Alvo. Perfumado. São desagradáveis as manchas de batom. Alicinha gosta dos carmins.

Olha em volta. Está quase na hora. Devem chegar alvoroçados. Ah! As desculpas! Tão engraçado ver Carlos mentindo para encobrir os deslizes de Alicinha. Armênio trará orquídeas ou uma caixa de amêndoas glaçadas de marzipã? Amo os dois. Foi uma pena não chamar Heleninha e Daurio. Quero um ambiente mais íntimo. Tenho quase certeza que Alicinha vai trazer um perfume exótico bem ao gosto dela. Carlos, aquele livro que citei outro dia. Ou foi na semana passada?

Dirige-se ao interior do cômodo. Retorna minutos depois trazendo uma sineta que pousa sobre a mesa. Da gaveta, retira um incenso. Acende. Segue com os olhos a fumaça perfumada que vagueia pela saleta. Chega próximo à janela. Senta-se.

A mesma cena. Sempre espreitando de sua janela as do prédio vizinho. Agora nem disfarça. Simplesmente olha alheia a tudo. Pega o livro que repousa na mesinha ao lado da cadeira. Folheia-o. Abre mais a janela. O vento toca seu rosto numa massagem lenta. Passa os dedos entre os fios levemente encaracolados do cabelo ainda úmido. Amassa-os para dar jeito.

Levanta-se e vai até ao aparador. Ajeita o arranjo de flores tropicais. Como são bonitas e intrigantes. Lembram rostos macilentos de cadáveres. Antonieta nunca deixou faltar em seu jardim. Marina também. Pega uma das caixas da coleção. Esta eu trouxe daquela viagem ao México. Não, Portugal. Tenho certeza.

Apura o ouvido, andando rápido segue em direção à porta de entrada. Volta à janela. Pensei que era a campainha. Este silêncio me dói os nervos – me confunde. Aperta uma tecla do aparelho de som. A velha dama está cada vez mais concentrada. Olha o relógio de pulso. Inquieta verifica o espaço povoado de lembranças. Quase meia noite. Vou acender mais um incenso. Por que demoram tanto? Leva um lencinho de cambraia até o rosto. Repete a cena e desta vez mais próximo ao olho. Consulta o relógio da parede. Pega, no balde de prata, a garrafa de champanhe. Retira a rolha cuidadosamente. O líquido gelado e espumante escorre por entre seus dedos. Sou muito desajeitada. Nunca aprendi a abrir champanhe, Joca sempre estava atento. Enche uma taça. Seus olhos buscam as janelas do prédio vizinho. Tudo igual, apenas numa delas uma discreta penumbra.

A campainha toca. Toca o carrilhão. Tudo ao mesmo tempo. Meia noite. Vira-se. O olhar busca a janela do outro lado. Está escuro, a cortina esvoaça. Abre a porta. Ergue a taça.

- Feliz Natal!
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Onde estão os pardais?

- Meu filho? Ele não é disso. Menino bom. Calado, tem até trabalho fixo. Onde?

Conheci pardal menino. Escuro. Corpo franzino, penas murchas. Molhadas nas águas podres dos canais. Calado. Não fala. Olha. Olhar vazio. Barriga encolhida. Tripas secas.

- Não sei não, moço. Sei de carteira não. Oh! Virgem Santa! Quanta dor. Se ele tinha inimigos? Não moço. Que pergunta mais sem propósito.

Conheci canário menino de corpo sarado, penas fofas. Mergulho nas piscinas de águas azuis cheirando a cloro

.- Meu filho? Ta brincando! Ele não é disso. Menino muito bom. Bate para se defender é claro. Está pensando que ele é bobo? Estuda. Tem aula de natação, judô. Onde?

Mistura. Penas brancas, fofas às murchas e encardidas. Trinados límpidos e chiares estridentes. Risos, gritos. Livres. Sem pudores. Vida. Crianças.

- Num tinha vício. Avião! Meu Jesus! Justiça? O que é isso dona? Zuza, você já viu pobre ter essas coisas? Tem não moça.

Os meninos pássaros crescem. Levantam vôo. Morte aos pardais. Corpos caídos pelo chão. Pequenas aves, quase adultas, exterminadas pelo sistema.

- Desgraçado, não faz assim, ele tá morto. Bandido? Já disse, não empurra! Pari bandido não, viu? Você pode dizer tudo que quiser mesmo assim é meu filho. Santa Maria rogai por nós!

Rios de sangue correm pelas vielas. Crimes, torturas - guerra urbana. Julgamento sem tribunal. Sentença de morte. Papelotes. Menores. Pobres. Morrem ainda na infância.

- Mas moço, mesmo assim eles morrem nos becos. Em surdina. Perdoa minha Virgem Imaculada tanta ruindade. Bichinho, todo melado. Jogado no beco. Tão largado

Canários em revoada, cantam, fazem algazarra, quebram. São canários. Jogo, fumo. Cocaína. Estupro.

- Não meu caro, era apenas brincadeira. Não está vendo. Ele arrebentou a criatura pensando que fosse uma vadia qualquer. Coitado. Nada de fotos. Já disse. Quanto custa? Nada de fotos. O que você está pensando. Eu posso. Vá. Quanto? Diga.

Asinha murcha, entreaberta largada no chão de terra. Esgoto, lama e sangue. Massapé dos Diabos. Trinta e oito.

Cópias caricatas dos canários. Louros, brancos. Ouço o soluçar das mães. Desencanto. Tristeza. Onde estão as risadas? Ouço o choro. Desespero. Rios de sangue correm pelas vielas. Crimes e torturas - guerra urbana. Julgamento sem tribunal. Sentença de morte. Papelotes.

- Sei moço que se fosse no canal, já tava podre. Diz isso não. Olha as formigas. Livrai-nos Senhor! As danadas tão entrando pela boca. É maldade demais.

Os meninos pássaros crescem. Levantam vôo. Morte aos pardais. Corpos caídos pelo chão. Pequenas aves, quase adultas, exterminadas pelo sistema. Rios de sangue correm pelas vielas. Crimes, torturas - guerra urbana. Julgamento sem tribunal. Sentença de morte. Papelotes. Menores. Pobres.

- Ana, vai lá em casa, traz um pano pra eu cobrir o tadinho. Nem morto tem sossego. Não esquece a vela. Jesus clareia o caminho do meu menino. Perdoa estes miseráveis.
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CÁSSIO CAVALCANTI


Chamou Eu Venho...

Não adiante chorar, me chamou eu venho. Agora é tarde para se arrepender.Tinha que ter pensado antes nas conseqüências de seu ato. Calma, veneno no refresco faz logo efeito. Ainda tenho muitos para atender hoje.
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Os Cabelos de Sofia

Caio, estava dentro de seu carro, aguardava o sinal abrir. Olhava sempre os carros em sua volta. Em um, uma mulher passava batom, em outro um jovem escutava uma música que parecia animada, em um carro mais na frente um homem acendia um cigarro. Caio, era o que se podia chamar de realizado, tinha muitos amigos, muitas mulheres, um bom carro. Mas a impaciência e o vazio, sentimentos esses que se tornaram seus velhos conhecidos, e não o deixavam nunca. Mas nem sempre foi assim, ele não teve no início uma vida das melhores. Filho de pais separados, deveria ter dois ou três anos quando aconteceu a separação de seus pais, e desde então não passou a ter mais contato com seu pai. Vindo de colégios públicos, mas sempre sendo o primeiro em suas turmas, foi fácil conseguir o seu “lugar ao sol”. Passando por uma universidade com perseverança, depois um concurso e mais um primeiro lugar, e um excelente emprego.

Sinal verde, Caio dá a partida, mas se assusta com um barulho e para em seguida. Não acredita, na frente de seu carro uma mulher caída. Perplexo, sai do carro imediatamente. Ao se aproximar da mulher ainda caída, ele admira os cabelos de sua vítima. Uns cabelos de um louro que somado aos reflexos de um sol escaldante, resultavam nos mais belos cabelos de uma mulher que ele já havia visto em toda a sua vida. Aqueles cabelos molduravam o rosto belo e atraente da jovem Sofia. Que por sorte, não sofreu nada mais grave, somente algumas escoriações. Caio sentiu-se invadido pelo frio que inunda o nosso interior, que mais parece água gelada a molhar o nosso íntimo. Aquele que só sentimos quando a atração pela outra pessoa é das mais fortes e arrebatadoras. Ele pergunta entre a adoração e a preocupação:

- Você está bem?

Sofia responde meio atordoada:

- Acho que sim.

Ele então sorrio, o mais tranqüilo dos sorrisos.

Cinco anos se passaram, Caio encontra-se no mesmo sinal fechado. Ele agora não olha mais os carros em sua volta. Dentro de seu carro ele contempla Sofia, que sentada a seu lado, é sua mulher. No banco detrás duas crianças brincam, seus filhos. Caio não procura mais, agora ele tem. O sinal abriu, Caio se vai não mais acompanhado pela impaciência e o vazio, mas sim pelos cabelos de Sofia.
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Quem não tem nada a perder

Dizem que para se tornar assassino basta matar pela primeira vez. É como andar de avião ou entrar em um cemitério a meia noite. Depois de passar a fronteira, perde-se o medo. Fica tão fácil quanto beber água. Já vi filhinho de bacana se cagar com um revolver na cabeça. Muito machão chorar como uma menininha.

A sensação é muito boa, decidir naquele momento quem não vai mais viver, com um simples mover de gatilho. É o poder. Como se tornar assim frio e impiedoso? É fácil. Imagine uma criança de cinco ou seis anos, não sei mais ao certo. Sempre que ela acorda com medo, ver a mãe com um homem diferente a cada noite. E quando é notada, ser jogada para fora de um barraco as três da manhã. E ficar parada ali, com frio até amanhecer. Quando a porta se abre escutar um simples:

- Entre.

Acredite, quebra-se alguma coisa dentro de nós, que nunca mais terá conserto. Quando se tem certeza quem não existe o amanhã, quem vai morrer a qualquer hora, como se preocupar com a vida de quem desde o nascimento a vida lhe sorri.

Só um troço nunca se esquece, o olhar de uma criança quando sentiu, respingar o sangue do pai antes de tombar, no rosto. São olhos de quem não tem mais nada a perder, de quem é esquecido no frio.

Tudo na vida cansa. A grande sacada é saber a hora de parar. Quando se é sozinha na vida essa noção é mais que uma questão de sobrevivência. Fala-se muito em fundo do poço, mas cair de cara em cima do próprio vomito e não ter coragem de se levantar, poucos passam por isso, dos que passam, no outro dia, quando conseguem ficar de pé, não são mais donos de uma sanidade mental. Insanos marginais que vivem a margem de uma sociedade caótica.

Dizem também que quem envereda por esse caminho não tem mais volta. Pois eu consegui e ainda continuo com o poder. Agora decido quem vai para o céu ou o inferno. No meu templo os fieis seguidores confiam cegamente em mim, em troca da salvação:

- Entre meu filho. Nossa igreja é humilde mais é a porta para o reino eterno repleto de glória e paz.

- ...

- Me dê essa arma. Aqui você não vai mais precisar dessa muleta. Esse seu olhar! Quem é você?

- Eu sou a luz de sua salvação. O anjo dos justos, com a mão pesada da justiça que vinga os mortos.

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O Pacote

Eram saborosas, ele não passava sem elas...

Carlos chegou em casa cansado, e tinha como companheiras naquele apartamento escuro apenas as bolachas Crean Craker. Não suportava mais pensar que Heloisa se negava a lhe sorrir. Queria acabar com tanto sofrimento.

A sala era maior do que parecia, a penumbra que se encontrava a tornava menor e sufocante. Nas paredes não havia quadros. A não ser o desenho mau feito de uma forca que colado na parede branca os rabisco do que seria uma corda se sobressaia. Não tinha uma televisão e ali não se escutava música alguma.

Sentou-se a mesa junto as suas companheiras, desfez o nó da gravata e a jogou para um canto qualquer. Decidira-se pela a ausência de cabelos já fazia algum tempo, com isso se tornava um pouco estranho. Estava magro, somando isso à altura, fazia as colegas de trabalho tremer ao olhar para ele. Quem eram elas perto daquela que teve nas mãos. Falassem o que falassem, para ele nada significava.

Aquele imbecil pensa que é o maioral, um chefezinho de departamento de criação. Dizer que a empresa estava perdendo a boa imagem por causa de um funcionário que mais parece um morto vivo. De certo não sabe o que é perder algo que lhe é muito caro. Na certa nunca foi abandonado. Criado com uma vovó lhe mimando, em boa coisa não poderia se tornar.

No rosto comprido as olheiras se destacavam. Nada mais lhe importava a não ser a ausência daquele riso.

Você sabe o que é nunca ter nada, já está acostumado naquela realidade, de repente ser o mais privilegiado dos homens, ter os que muitos nunca terão em toda a vida, e depois como em um passe de mágica voltar a ser o titio, o cara calado que nunca vai para um bar por que nunca é convidado por ninguém. Não.

As vezes penso que o maior dos ouvintes é o silencio. Nos escuta com paciência e não tem pressa, falamos, falamos, geralmente tão baixo, só em pensamentos e mesmo assim fica calmo... Não diz nada, não nos julga nem tão pouco nos dá sermões. Acredite o silencio e o mais sábio e o mais verdadeiro dos amigos.

Decidiu-se por apanhar a gravata do chão que a tempo observava. Batia o pé direito ainda com a cadência de um pêndulo de relógio antigo. O atrito da sola do sapato com a cerâmica do piso fazia um barulho sincopado e irritante. Foi parando, parando, parando... O pacote com as prediletas foi à única testemunha do acontecido.
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RAISA FEITOSA
sucata viva, eloquente sacripanta

suando lágrimas de exaustão
conformidade elucidada
constrata, maltrata, corrobora o egocosmo ou egotismo, se assim as alfazemas douradas cristãs purpurinarem!

envoltas por uma capa sórdida, emporcalhada
emoções vazam, transbordam, sambam e degolam
congestionam o corrimento de ilusões caricaturadas

fecha-te
porta do rancor
fechai essa entrada abraçada por fios constituintes
cada emaranhado jocoso inala putrefação, sacas rasgadas inundada por ossos pestilentos,
de faces à crânios
de membros à garras
feições grotescas que assobiam fúnebre louvor requerendo para o vaso a planta regadora

regador
regar sua dor
regadora que sou. nadarei. nadar na dor. sucumbirei meu senhor

incito condolência, surpresa benevolência.
despejo sua essência aromática fedorenta para que as canonizadas folhas roxas
cheias de esgares
amorfinem o solar deus primata
vulgo ocaso magnata!

arrancada, extraída, expelida pela terra viciada
replantada pelos iconoclastas irmãos incestuosos.
sujeita à mãos delicadas, antes tão sacras. putas. sábias
contaminada violada com água fétida envenenada virulenta, mas qual?! água doce calcificada imoral
estrutura que fortifica a volúpia despida e violentada
desaba à luz fulgurante do ente solar
megalomaníaco, amante, existe em concumbinato obsceno.
ninfomaníaco autofágico neologista suplementar
profundamente venerado pelos palitos da caixa terráquea fosfórica

infiltrado os raios cancerígenos impúdicos
calejando os pés escaldantes que caminham a madrugada
malogram uma estada, os estoicos pecam ostentando a força da alvorada, enterrados vivos cantam a safra dessincronizada
epicuristas dormem latentes e serelepes almejando no sonho, confrangido pelos ensandecidos insetos hominídeos, acarear

a minha, doravante, minha terra do nunca

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Primata Lírico

Vida cigana.

Nada a levar.

Apenas a felicidade de seguir só.

Fugindo.

Correndo.

Lentamente.

Eu vou.

Para o mundo me levar.

Mas eu tenho uma trilha preparada só para mim,
o caminho que vi ao sonhar noites,

sem dormir.


Insone...

O vulto. O silêncio.
Meu corpo dentro do espelho...


Através da grade sucateada, constituída pelos meus pesadelos conscientes, enxergo o céu...

E as nuvens passam depressa, irreverentes.

Pérfidas borboletas de algodão, a ignorar, minha moribunda canção.

Ao encontro do sol,

continuo a andar.

Vida cigana.


E me pego às vezes perguntando.
Se é sonho,
musicar o silêncio
da mente.

Louca jornada nestas ruas estranhas.

Sombras infestadas de sol.

Em nuvens humanas fui silenciar minha voz.

Vida.
Cigana.

De volta e outra vez.


Fugindo.
Correndo.
Lentamente.

Vou.

Sou guia.

E morte.

Vou voltar para o meu limbo dentro da noite solar.

Eua lua e o primata lírico.




Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Textos apresentados no Nós Pós parte 20 - Rosângela Ferraz*

CONTOS MÍNIMOS

Do livro "Luz de Lamparina"

1-Desolação

Na última cadeira do plenário,chapéu surrado sobre o joelho, o ancião deparava-se com o filho algemado.
Desviava loucamente o olhar,desviava.E, apressado,trêmulo,limpava com as costas das mãos,uma, depois outra, a lágrima escorrida com inteireza, que teimava em cair aos pedaços.Intrusa, essa delatora de coração. Há muito, há muito arrancado do peito.
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2-De todos os dias

A menina de sete anos perambulava. Inveja de quem comia. Tudo tão negro, a fome colorida. Talvez caramelo. Talvez chocolate.
Cobiça da retina no mosqueiro da praça. Bem no centro podre da cidade, rodelas maravilhas: tomate e cebola em prato de macarrão. Conseguiria? Bendito sois, se, talvez pão.
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3- Sem Voz

Puxando a carroça, puxando. A feminilidade esquecida nas rachaduras dos pés. Exaustão, parou na calçada e escutou o grito. Passa, passa. Cadela.Sem cachorros atrás.
Emudecida a voz que não tinha.A boca tremida dizia o que as pálpebras baixas insistiam em esconder.A inteira humanidade passava. Passaria.
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Do livro "Campos Ceifdos"

1-CHUVAS DE INFÂNCIA

Mergulho nas chuvas
que molhavam as calçadas
Da minha terra, de pouco verde: caraibeiras e algarobas.
Mas de pouco verde belo – tamarindos !
E eu catava o fruto azedo, que caía com a ventania.
Bages e alfinins, doces pirulitos da minha infância!

Mergulho com os lábios roxos,
Com os pés descalços e gelados ,
Com os dedos enrugados de felicidade!

Mergulho nas carreiras que eu dava na chuva
Ensopada das bicas ,das goteiras de águas mornas
que desciam dos telhados,
dos telhados de minha terra.

Eu tomava banhos de liberdade!
E sentia o cheiro inconfundível
dos pingos assentando a poeira,
O cheiro inconfundível da esperança
da minha terra fumegante,
que depois da chuva
ficava gelada de alegria!
Como eu criança.
Como eu,
mergulhando nas chuvas da minha infância!
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2-Envolvida

Mais cedo da noite abracei as crianças.
Agora , sentada no sofá, abraço a mim
sentindo o frio da madrugada
que entra pela fresta da janela.

Levanto-me.
Abro de vez.

A rajada de vento gelado
acalma e seca-me o rosto lambuzado de chorar.
Levanto os braços trêmulos em direção à lua;
Tranqüila, envolvida em véus de nuvens.
Envolvida.Envolvida.
Embala-me ,lua!
Embala-me, lua!
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3-Espinhos Cancioneiros

Os espinhos cantam canções.
Escassez de escuta.
E cantam.
Cantam com a cerimônia da vida latejante
que estampam inteira.

Nos espinhos
as feridas sangram
E as rosas precisam de amor.
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4-Os deuses da rua: Coisas e gente

Há uma profunda solidão em cada um.
E os deuses perambulam.
E são tantos que se perdem frente a frente.

Deuses ignorados,
amontoados entre eles
e espremidos entre nós
a tirar-lhes o supra sumo.

Conhecem o frio da noite, o calor do dia,
o guarda que não os guarda,
a ventania sem proteção.

Os deuses das ruas,
Apagam vida na esquina
e salvam outra no próximo beco.
Insólita situação.

Eles caminham sem rumo,
afinados com o nada.

Os deuses meninos,
soltam o riso no vôo dos pombos,
brinquedos de verdade !
Todos na praça.

Os deuses crianças,
eles fazem acrobacias,
acenam nas esquinas,
assustam nos sinais de trânsito.

As inocências conhecem o imponderável,
As rugas,
o abandono consciente e sistêmico de outros deuses bem vestidos.

São muitos .
Deitados sobre papéis.
Aos maços. Eles e os papéis.
Matando por papelão.
Papel, mel, melão.
Lenço, travesseiro, colchão!

Deuses, meu irmão!
Espíritos santos escanteados
Sentados na beira da vida.
Segurando tigela de caldo,
Caldo de vidas partidas,
derramadas em conchas contadas.
Cascas de pão!

Nas ruas,deuses primorosos, nem sabem deuses são.
Nas ruas,Deus sem maquiagem estende a mão.

Deus água com açúcar nas mamadeiras das crianças nordestinas.
Dias de chuva,Deus sustentáculo dos barracos.
Deus oportuno no pão jogado fora bem na hora em que o faminto passa.
Deus milagroso, tirando a dor no mantra do gemido.
Deus no pano molhado,tirando a febre no rito.

Eles contêm uma profundidade que os anjos não alcançam.

Reproduzem-se como coelhos, ratos.
Espalham-se.
Pedindo.Pedindo em todo canto.
Canto.
Silêncio.
Um silêncio silencioso demais.

Exigindo.Berrando.
Deuses gritando nas passeatas, nas rebeliões.
Abraçando os filhos meus, teus e cuspindo neles.

Temos pavor desses deuses .
Eles miram primeiro.
Os olhares conspiram, suplicam aprisionados.
Violentando. Violentados.
Violentas vidas.
Violas lentas.Emudecidas.
E não cantamos para eles sequer a melodia da esperança.

Plenitude de vida.
Deuses plenos.

Ocultos,exibidos,exilados .
Na espreita e odiados.
Pedindo,clamando,
suplicando que o amor cresça.
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5-Notas de um hino (Intertexto)

O povo é mesmo heróico, persevera.
O governo e os poderes permitem,
ignoram a fome, a indigência,a vida sem dignidade,
morte quase, morte d'alma !
E o sol da liberdade é ofuscado pelos cretinos
que insistem em manter o que chamam
de currais, galinheiros, pocilgas,
no intuito de mais facilmente
manobrarem compatriotas,
patriotas que não são.

Resplandece em nosso céu a imagem do cruzeiro
e em nosso solo o abandono do impávido colosso,
pela mesquinhez de muitos,
a quebrar-lhe os braços fortes,
fazedores e sustentáculos da própria nação.

Onde está a nossa terra mais garrida?
Ela persiste esquecida, sem estampa nos jornais?
Onde estão as flores, mãos, os milhos de teus campos?
As vidas de teus bosques?

Tombam queimadas e derrubadas
na velocidade da ambição que lentamente mata.

E os amores de nossas vidas,
deixados em teu seio,
num sertão esturricado "qual fogueira de São João" ?

Os filhos desse solo, ó mãe gentil,
os seus meninos,
Estão sem lápis, sem livros;
e seus papéis não têm desenhos!

O branco da paz no futuro
acena nos lenços que enxugam as lágrimas
derramadas por tantas vidas apagadas,
tragadas pelas mãos estúpidas da violência.
Idolatrada, salve, salve
por aqueles a quem sua presença convém!

E a glória do seu passado, ó pátria amada,
Distancia-se das lembranças .
E a lembrança da clava forte,
que foi usada para espancar
e não só para espancar
os filhos teus que não fugiram à luta,
que não temeram,
que te adoraram,
está cravada
persistindo no brado retumbante dos que ficaram.

Desafia o nosso peito,
o governo e os poderes,
a curvarem-se com civismo,
como raio vívido que de amor e de esperança à terra desce.
Entre outras mil, Amado Brasil!
____________________________


Do livro "Águas de Chuva"
Poesias mínimas

1-Guardiã

Guardo segredos entre véus e argolas.
Pulseiras de asco, anéis de tortura.
Guardo liberdade enclausurada em falsa alegria
Encontro contido, acontecido jamais

Guardo a poeira da terra molhada
E o vôo dos cavalos caídos

Em dança soluçante
Liberto vontade de rever mãos dadas.
____________________________


2-Onça Coração

Fala meu corpo línguas ligeiras
Transparece na gata doméstica
a onça desgarrada, fugida da selva.
Onça pintada, unhas feitas.
Perfeitamente entregue a devaneios.
Loucura límpida e desejada.
Louça e fogão.
____________________________


3-Depuração

Nossas dores se desdobram
m gemidos.
Soluços e desencantos e esperanças.
Acordes que, no fim,
resta somente canção.
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4-Tratamento

Do sangramento,o melhor foi o sangue escorrido
Pingado em pequenas doses.

Tempo de sangria.
Tempo de coagulação.

Da ferida, a crosta.
Quase bicho de estimação
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5-Desencanto

Há uma sereia sem mar. Sem rio.
Facões e martelos,
cauda cortada.
Extirpada,cheiro de peixe.
____________________________


6-Festa de Casamento

Há um suspiro da noiva tostado no bolo.
Escarlates merengues.
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7-Desconhecida

Sou o mundo que desconheço.
Bichos, bichos.
Lírios, lírios.
Chagas. Ressurreição
E vagas.
E vagas.



*Textos Inéditos

Textos apresentados no Nós Pós parte 20 - Sachiko Shinozaki

Insosso

Cansada
Morgada
Sem brilho
Sem cor
Não há gosto
Nem desgosto
Só cansaço
Nem sono
Nem fome
Vida?
Não sei
Só cansaço...
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Esperando...

Seus olhos já não são tão brilhantes
O tempo passou
O eterno instante de esperar
Tornaram-se obscuros pontos do nunca
A ponte caiu
Não há mais o além do horizonte
Prédios enormes o esconderam
Não há ansiedade,
Agora tanto faz
Aquele que vem, vem?
O incerto futuro perdeu-se no tempo
A eternidade “efêmera” deixou marcas
Olhos nevoados pelas cataratas...
Essência

Perde-se na vida
Muito tempo tentando entender
O que não é para ser entendido,
Explicar o que não pode ser explicado.
Qual a importância de saber o tamanho do sol e da lua?
A que distância estão?
Basta que eu sinta o calor do sol,
O brilho da lua.
Não quero saber de onde vim e pra onde vou.
Eu vim e vou até onde puder.
Sou corpo, alma e mente.
Quero apenas o bastante,
Para alimentar o que sou.
O silêncio dos falantes,
A calma das crianças,
O murmúrio dos livros,
A agitação dos poemas,
Vitaminas e proteínas dos que se foram.
Qualquer música eterna dos amantes da vida.
A certeza de ter amigos,
Cumplicidade das palavras,
Solidão imensa do Universo.
Eu estou e sou.
Amo.
Canto.
Rio.
Vivo...E tenho você.
___________________________


Deleite

Estar contigo é um prazer
Ficar assim, mornamente nos teus braços;
Aconchegada, largada, dormente e demente.
Esquecida de tudo, num ato de perder,
Toda a razão dos percalços
Da vida, assim, docemente.

Lá fora a chuva ou será o sol, ou estrelas e lua?
Não sei, também, que importa?
Só eu e você, nesse abandono.
Nada acontece na rua
O momento não suporta
Nada mais que nosso contorno

Um olhar, um sorriso, palavras, carinhos;
Mundo perfeito, nosso mundo.
Brisa suave, quieta, só espiando,
Murmúrios baixinhos
Pra não atrapalhar, como música de fundo,
Da paisagem, de mim em você aninhando.
___________________________


Caos

Presença incômoda
Ausência sentida
Ásperos carinhos
Afetuosas grosserias
Atenção imperceptível
Terna indiferença
Assim és tu
És a própria dialética
Assim te amo
Assim te aceito?
Tem gosto de sangue na boca
A morte do que foi tão pouco...
Tão intenso que nos enganou
Tão amargo que nos feriu
Feridas tantas vezes abertas
Nem cicatriza mais
A cura possível é a despedida
Ferida maior para cobrir todas as outras
Certeza de que a cicatrização
Será de todas as outras
Até do meu amor por você...
___________________________


Mira-se

O passado desfila
diante da imagem do presente no espelho,
reflete o futuro de dor e morte.
Odeio espelhos...
___________________________


Turbilhão

Efêmera vida
Escorre pelas mãos,
Pelos poros,
Pelas narinas.
Amores vãs,
Platônicas querelas,
Eterna procura.
Certezas e dúvidas,
Dúvidas e incertezas.
Carícias rasgadas,
Corações ardentes.
Mente, alma e coração,
Uníssonos, desafinados;
Afinados, destoantes.
Pares sem ordem,
Ordenados ímpares.
Efervescente.
Quieta.
Silencia o grito,
Grito calado.
Maremoto incessante,
Cessa a tempestade.
Assim é vida
Pragmática,
Irreverente,
Inconstante,
Adversa,
Divertida,
Dicotômica,
Infinita.
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Advérbios

Sou errante
Andante
Caminhante
Que tem na mente
Uma só semente
Pulsante
Vibrante
Continuamente
De viver livremente.
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Sarapatel com sushi

Deve ser coisa da idade
Mais de 40 anos bebendo água brasileira
Começo a misturar as coisas.

Cachaça com saquê
Samurai com Lampião
Recife com Nakasaki

Kabuki com Mamulengo
Maracatu, frevo, vassourinhas, ciranda e roda de coco,
Com os tambores e cantos dos festivais de cerejeira e dos “Bom-Odoris”

As ruas e pontes do Recife
Com as lembranças das ruas da minha infância

Monte Fuji, olhos puxados, quimono
Capoeira, caranguejos, vitalinos.

Olindando nos carnavais
Recifrevando nos passos do Galo

Carrosséis e cirandas
Girando na roda dos tempos
Fusos horários
Acordo quando anoitece em Tókio
Tókio acorda com a lua sob o Capibaribe

No Japão eu nasci
Em Pernambuco vou me ficando.

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

SITE CURTPE DIVULGA CULTURA PERNAMBUCANA



Vale a pena conferir o CurtPE - o site exclusivo de divulgação da cultura pernambucana!

"Nós que somos apaixonadas pela diversidade cultural da terra, sentimos a necessidade de criar o CurtPE por notarmos as grandes dificuldades que os artistas locais possuem para divulgar suas expressões, letras, sonhos, sons...

Então estamos aqui para colaborar com todos vocês... Músicos, Dançarinos, Cantores, Atores e o público apaixonado por Pernambuco como nós!

Fiquem à vontade e podem curtir conosco!!"

Adri e Pri

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

NÓS PÓS - PRÓXIMO EVENTO



Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

Textos apresentados no evento Verão Gelado - Sorveteria Sto. Doce (em 22/01/09)



YUGO TAROO


Dois amigos

Eram vinte e seis pessoas na hora do primeiro disparo.

Essa data não é boa pra morrer. Agora não dói, mas em breve, vou sentir. O negócio estava quase fechado. Era gostosinha e eu ia pagar barato. Agora estava ali, estirado no chão, buscando entender para onde ia aquela confusão: gritos e pernas para todos os lados. Ainda consigo respirar...

Ouviu-se o segundo disparo.

...vi a gostosinha cair. O Recife todo enfeitado, os amigos e os vinhos à minha espera, eu com medo de ficar sem ar. A vi rastejando para baixo de uma mesa. Quem era que tinha disparado? Ali, estirado no chão, era perigoso ficar, criou forças, arrastou–se até a mulher, perguntou:

– Você está bem?

– Acho que não.

“Se continuarem correndo eu vou continuar atirando.” Disse o homem vestido de Papai Noel.

Todos pararam.

“É um assalto.”

Silêncio.

“Por que essas caras de espanto?”

– Você não é um Papai Noel? Disse um.

“Qual é pessoal, aqui é um bordel, sem falso moralismo, tá legal?”

– Papai Noel malvado. Disse outro.

“Vamos lá, sem muita conversa, colocando os objetos de valor no saco do papai”

O Papai Noel fechou o saco abarrotado de pertences.

“Feliz Natal, meus filhos.”

E saiu.

O telefone de Noel toca.

“Alô, você não sabe o...”

–... Que aconteceu.

“Assaltei um Bordel.”

– Levei um tiro.

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Música para jantar

Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida

Eu vou te amar... “

Essa é a nossa música, ele disse. Não sei, escolha o que vai comer, ela falou. Meu amor, não importa o que vou comer, bom mesmo é está aqui ao teu lado. Por que você me trouxe num restaurante tão caro? Pensei que você soubesse. Não sei, por quê? Ás vezes eu penso que a mulher do relacionamento sou eu Maria, você é tão insensível.

Espera um momento Carlos , alô? Sim, é Maria.

  • Vocês já escolheram o que vão comer?
  • Espera ela terminar a ligação que agente decide.

Sim senhor pereira embaixo da, não , aí não, dá pasta verde, tem que ficar calmo de hoje não passa, já disse senhor pereira, de hoje não passa. Vou desligar, tchau.

— Desculpa te fazer esperar, mas é que assistente tá sempre com trabalho acumulado. E quando é mulher os advogados exploram. Mas eu olhei aqui no cardápio e vou querer o prato da casa.

  • E o senhor?
  • O mesmo que ela.

Sim, quer dizer que a mulher do relacionamento é você, besteira sua, só não sei pra que gastar esse dinheiro todo. É, começo a pensar que é besteira minha. O que foi? Ficou com raiva agora. Não, de jeito nenhum...

  • ... Licença senhor. O que vão querer pra beber?
  • Vinho.
  • E a senhora?
  • O mesmo que ele. Vinho com peixe é uma combinação perfeita. Dr. Pereira que é um homem chique sempre fala isso.

Porra Maria. Fale baixo, não sei qual é o seu problema Carlos, eu venho cansada do trabalho pra um jantar que você inventa em plena Quarta-feira e você dá um piti desse. Piti? Sim, todo mundo ouviu o seu porra. Maria Gorete todo dia 17 de dezembro é importante pra mim, não sei se é pra você. Carlos deixa de ser enigmático, detesto isso em você, diz logo o que quer dizer. Hoje completamos cinco anos de casamento. Puxa. E só pra você saber, meu trabalho cansa mais que o seu, vai cortar a luz do povo pra você vê.

Desculpa amor vou ter que atender. Alô, Dr. Pereira acho que não vai dá. É, eu disse. Aconteceu uma coisa. Não vai dá. Não faça isso. Não. Por favor. Me prometa. Vou ter que desligar.

  • Licença senhor, vou afastar aqui pra colocar os pratos.
  • Tá certo.

    “A felicidade do pobre parece

    A grande ilusão do carnaval...”

Você não vai falar nada? Porra, de novo esse cara ligando. Não tem problema, eu não vou atender. Mais esse cara é um babaca. Dr. Pereira é chato assim mesmo. Porque você está nervosa? É, foi a mancada que eu dei com você. Maria você está tendo alguma coisa com esse...

  • Dr. Pe-rei-ra...
  • Fique calma Maria. Senhor Carlos, temos algo em comum...

    “ Trocando em miúdos, pode guardar

As sobras de tudo que chamam lar...”

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Quando o meu poema devassar os teus nervos

E ficares à meia luz refletindo num cigarro

Lembrarás das imagens dos nossos beijos

Entenderás esse verso como um escarro

Entregar-me sem reservas

foi minha meta.

Amar sem pudores

foi minha busca.

Entender a saudade,

Não liberta

Dissimular a saudade

Me assusta.

Lembro-me das imagens dos nossos beijos

O tempo os levou como jornais na tempestade

Mas meu coração tragou os sentimentos

E esse poema nasceu da raiva e da saudade.

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GERUSA LEAL


Coelhamente

cansada de estar sentada

sonhando sem fazer nada

sem vontade nem de ler

assim sonolentamente

margaridando correntes

correu cor-de-rosamente

trazendo nos olhos brancos

da suculenta cenoura

o resto de uma dentada


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Mousse de chocolate

separe as claras das gemas

para que saibam quem são

às gemas, agregue açúcar

e misture docemente

que se desmanchem assim

feito mulher beijada

as claras, deixe-as em neve

túrgidas como devem

e então, delicadamente

faça com que se misturem

às gemas completamente

no fogo, em banho maria

dissolva o chocolate

e a calda quente e cheirosa

incorpore à porção

após despejar contente

na forma que vai levar

por horas à geladeira

a saborosa mistura

enquanto aguarda que tome

a desejável consistência

sente confortavelmente

abra as pernas e entre elas

acomode a tigela

lambuze os dedos e lamba

até não restar doce algum


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Acidente de percurso


Já começou errada. Nos sonhos via-se outra. Lembrando de estudos e práticas antigas, herméticas, sonhava de olhos abertos, na intimidade aconchegante da poltrona velha de couro na biblioteca do avô.

Passou a vida tentando apagar as próprias pegadas. O colo materno não redimia; mesmo seguindo os passos do pai e da mãe (e talvez por isso mesmo), estava errada.

Culpada de não ter pintado, cantado, dançado, por habitar um mundo que não era o seu. Quantas guerras lutou que não lhe diziam respeito.

Porque não teve coragem de bradar o seu serei poeta ou nada. Nunca empreendeu sua viagem à Ìndia. Nem a crise nervosa a justificava. Pelo contrário: era delação. Culpada. Errada. Não era questão de velocidade nem direção, mas de sentido.

Como é que agora, o corpo preso entre as ferragens, vem com essas desculpas?


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Facas

“- Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!”

Machado de Assis

Partiu-se enquanto cortava uma fatia de provolone. Uma bela faca. Cabo de marfim, destacada para usos nobres. Servira, orgulhosa, por anos, a fio. Tão compenetrada exercia o ofício que não percebeu os sinais do tempo. Do cansaço da matéria.

Requisitada, oferecia-se ao serviço com denodo. Elegante, fina, fazia bonito em festas e reuniões. Fatiava assados, frios e queijos os mais sofisticados. Mesmo trabalhando compunha com os anéis preciosos, pulseiras finas e unhas bem feitas da senhora.

Agora estava ali, partida em duas. A lâmina fincada no cilindro de queijo, o cabo de marfim nas mãos decepcionadas.

O telefone tocou e foi largada, metade a meio da tarefa, a outra estatelada na tábua, despencando em cima do balcão. Nessa posição ridícula e frustrante, escuta uma vozinha vinda do escorredor:

- Aí, grã-fininha, lascou-se de tanto babar a patroa. Ah ah ah ah ah.

A faca de cozinha, com as mãos na cintura, exibia um sorriso escarninho. A situação era mesmo desconcertante. Mas a aristocrata não se deu por achada. Do alto do provolone, a metade mais afiada retruca:

- Moça, a conversa ainda não chegou na cozinha.

- Pois é aí que a madama se engana, nem saiu da cozinha, e o caso é que a distinta se deu mal. Ah ah ah ah ah ah.

- Não atino no que a diverte tanto. Seria, por acaso, ser hoje dia de festa e estar de folga das típicas atribuições subalternas que lhe cabem?

- Olha aqui, não xinga não, heim grã-fininha, não fui à escola como você, mas não sou burra, pelo tom azedo dessa sua voz engomada, que deve ser o gosto desses queijos fedidos que faz tanta pose pra cortar, sei que está me sacaneando. Subalterna é a ...

- Já cortou um provolone em toda a sua vida? Já sentiu a maciez de um pernil assado? Tem, por acaso, o apurado paladar que o corte dos variados sabores dos frios exercita?

- Ora, não, mas grande coisa, a patroa come esse tal de provolone uma vez na vida outra na morte, e te maloca no fundo da gaveta, enquanto eu participo do dia-a-dia, corto o coentro, a cebolinha, a carne pra fazer o picadinho, quando ela tá com pressa corto até o pão que alimenta os filhos de manhã antes de irem pra escola. Sem mim ela e a família não passam, já sem você...

- Muito bem, criatura simplória. Ela deve então te demonstrar amiúde o apreço que te devota. Em retribuição ao cumprimento de tarefas tão importantes. Quantas vezes já te convidou a acompanhá-la numa festa?

- Bem, nenhuma, mas e daí?, sou necessária, você não, vive-se sem festas.

- Por certo se a ela fosse dado escolher sequer te tocaria. As festas, em que a acompanho, é que lhe permitem suportar tua enfadonha companhia. Estás ao lado dela nos momentos estressantes e prosaicos do viver. Eu, quando ela celebra junto aos que quer bem. Nos instantes especiais, alegres. Verdadeiramente importantes.

A faca de cozinha baixa os olhos, apunhalada no coração.

A senhora retorna e pega outra vez o cabo de marfim. Olha desconsolada. Retira a lâmina do queijo, tenta encaixar uma parte na outra. Vira nas mãos, dá um suspiro. Joga na lixeira.

A faca de cozinha já está para provocar outra vez a rival quando se vê apanhada no escorredor e em seguida sente algo que nunca experimentara na vida: a consistência densa e ao mesmo tempo macia do provolone.

Finalmente uma promoção após tantos anos de bons serviços prestados. Fatia, com todo capricho de que é capaz. Nas mãos hábeis, se esmera, faz um bom trabalho. Ao final da tarefa, a bandeja maravilhosamente decorada, a frustração. Não vai para a sala com a patroa. Não está vestida para a ocasião. Trabalhadora braçal, o cabo de plástico traz as marcas de esquecimentos na borda de panelas quentes, de bocas aquecidas do fogão.

Não importa. O que vale é que de agora em diante não vai ter que conviver com aquela metida de cabo de marfim, o serviço aumentou, é verdade, mas não faz mal, agora reina absoluta na cozinha. Do balcão, recomeça a debochar da infeliz jogada no lixo, partida em duas.

- E aí, fracota?, foi só uma apertadinha a mais e se partiu em bandas, não agüentou o tranco. Quebrou e a patroa nem se abalou de te remendar, ao contrário de mim que já fui consertada duas vezes porque tenho bom corte. De que te valeu tanta pose?

- “Estupidez até pode ter um certo charme. Ignorância não.” Uma faca de mesa não se cola. Não poderia trabalhar remendada. Na minha função, aparência é fundamental. Nossa dona sabe disso.

- Você já era e quem ficou no seu lugar foi a feiosa aqui.

A boca do saco plástico é fechada e amarrada, encerrando a discussão. Hora de levar o lixo para fora.

A semana passou. A faca de cozinha cumpriu de modo exemplar suas funções. À noite, no escorredor, olhava orgulhosa ao redor, e não parava de tagarelar, gabando-se junto aos garfos, colheres e facas por estar acumulando as funções de faca de mesa, nunca mais teria que suportar a pose de alguma zinha de nariz empinado.

Noite de sexta-feira. Chegam à cozinha os sons de conversas alegres, sorrisos e música vindos da sala. Visitas. A tábua de frios é colocada sobre o balcão e vão surgindo da sacola do supermercado salames, presuntos, defumados. Um belo pedaço de queijo suíço. A faca, no escorredor, antegozando o prazer da nobre tarefa.

De outra sacola é apanhada uma caixa. De dentro do pacote surge a faca de mesa mais emproada que já se viu. Lâmina brilhante, sem um risquinho sequer. Cabo de madeira escura, de lei. Envernizada. Depois de um bocejo entediado empertiga-se. Olha de relance a faca de cozinha. Não se digna a dirigir-lhe sequer um boa-noite. Corta alguns bocados de cada queijo e é pousada como uma rainha na tábua de frios. Conduzida pela anfitriã, passa pelo balcão com ar de prima-dona. A caminho da sala.

A faca de cozinha olha ao redor. As peças do faqueiro da diária, puxando assunto umas com as outras, comentam a mudança no cardápio da patroa, que amanhã entrará de dieta.


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Gaza

o dia terminava

e o poente, escurecendo o céu

não poupava às criaturas terrenas

a sede

apenas aumentava a escuridão

o silêncio entrecortado de gemidos

nos hospitais, nas ruas

o percorrer dos ásperos caminhos

e das lastimosas visões

que as retinas

mesmo na escuridão

insistiam em exibir

divididos em três

invocamos os deuses

as musas

os homens

mas não nos chegam alimentos

remédios

sequer livros ou alaúdes

onde mitigar ou cantar nossa dor

nossas crianças já não dormem

o sono dos inocentes


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Sonhando com cavaleiros andantes

Marta, me conta outra vez aquela história do carro que assombra as ruas da cidade em noites de lua nova, saindo do edifício-garagem abandonado, assustando os casais que namoram nos pátios de estacionamento, e dentro das casas e apartamentos, sobressalta as mulheres com o ronco do motor e as arrancadas que ecoam na solidão das madrugadas, acelera sobre a insônia das crianças e dos idosos, com o derrapar dos pneus no asfalto silencioso. Me conta, Marta, como a alma do motorista do homem se separou.

Pois bem, Leandro, vou te contar outra vez como foi que se passou. Mas espera um pouco, Marta, sei que há muito te conheço mas sempre esqueço quem és. Agora já não importa, Leandro, quem é que eu sou. Apenas ouve a história que há tanto tempo te encanta. O que eu vou te contar é mesmo a pura verdade, embora tudo que eu saiba é só por ouvir falar.

Dizem que o rapaz, naquela manhã, pulou da cama bem cedo, vestiu roupa de viagem, jogou nas costas a mochila, calçou os tênis novos e pôs a mala na mão; seu sorriso era um sol. Despediu-se então dos pais entrou no carro e partiu. Falam que estava noivo de moça em outra cidade e nesse dia viajava pra com ela se encontrar.

A moça o esperava também ansiosa e alegre, de casamento marcado, tudo pronto, era só ele chegar.

Mas numa curva da estrada, numa errada ultrapassagem o tal carro derrapou girou na pista três vezes capotou girou mais uma e desceu pelo barranco.

De madrugada, geava muito na serra por isso só no outro dia é que foi localizado, bem sentado ao volante, o cinto de segurança preso ainda no lugar. Falam que os motoristas do caminhão que o acharam, e os caras da perícia não conseguiam explicar as marcas de pneus que batiam com os do carro também no sentido oposto do fatídico acidente, subindo pelo barranco arrancando terra e grama e na pista prosseguindo na direção em que vinha.

Marta, mas quem será que seria aquela moça a quem veio procurar? Será que ela ainda vive? Será que ainda o espera? Será que algum dia os dois irão se encontrar?

Não sei, Leandro, só lembro de estar há tempos na janela do quarto do apartamento dos meus pais no oitavo andar quando o velho entrou bem sério, me abraçou, baixou os olhos, saiu sem nada dizer. Do que eu me lembro depois, só do vento nos cabelos, da sensação que voava e de estar aqui contigo em noites de lua nova te contando um vez mais essa porra dessa história.


_____________________________________________________



Ex-finge

percorre as veredas do meu corpo

verás que ainda há parte do humano

que fui quando assim fingia ser

tateia com vagar todos os flancos

desse ser tão incomum igual a ti

de quatro talvez me descortines

de quatro animais encontras partes

à minha humanidade amalgamada

cabeça e seios de mulher

corpo de touro (ou de cão se assim preferes)

garras de leão asas de ave

e essa imensa cauda de dragão

não temas, amado, inda sou eu

a mesma que desconhecendo, amastes

e se duvidas de mim, olha no espelho

verás que, enfim, me decifrastes

__________________________________________________


MARIANE BIGIO

A Mãe que pariu o Mundo

(1)

Essa história é contada

Pela crença popular

Duma vila abandonada

Na Estrada do Pilar

Da cidade de Tetéu

Distrito de Cachumbá.

(2)

Antes era o universo

Um vão negro de dar dó

Tinha nada, só estrelas

Feitas de brilhante pó

Espalhadas pelo Vento

Que então reinava só.

(3)

O Senhor do Infinito

Cansou da escuridão

Teve idéia de fazer

A grande rebelião:

Roubou uma das estrelas

E a pôs em sua mão

(4)

Disse: estrela!oh, estrela!

Me cansei de ser sozinho

Nem o Vento é meu amigo

Pois é rei e é mesquinho

E também cansei do preto,

Que enegrece meu caminho

(5)

Sou Senhor do Infinito!

Quero muito colorir!

O universo é a tela

E de ti há de surgir

A mais prima obra-prima

O Mundo irás parir!

(6)

Nessa hora, emocionado

O Senhor lacrimejou

Uma água doce , cálida

Pela face lhe rolou

Pranto-sumo, seiva bruta

À estrela alimentou.

(7)

Esta fez-se então mulher

Com os seios volumosos

Com as ancas abarcantes

Os quadris voluptuosos

Já no âmago levava

Os pinguinhos preciosos...

(8)

O choro fertilizante

Já a tinha invadido

O seu corpo estremecia

Totalmente possuído

Por prazer e por torpor,

Por um caos enternecido.

(9)

A estrela-mulher feita

Adornou a sua testa

Com as flores lactosas

Das galáxias em festa

Recolheu-se a um canto

Pra tirar a sua sesta

(10)

Bem longe da proteção

Daquele que lhe criou

Ela descansava leve

Quando o Vento a rondou:

Sinto falta duma estrela

Acho que Ele roubou!

(11)

Amaldiçoada seja,

Tua cria ao nascer!

Vejo brilho no teu rastro!

És estrela, posso ver!

No Mundo que vai chegar

Vis desgraças hão de ter!

(12)

O Senhor ao escutar

Acudiu em seu favor

Fez do Vento simples brisa

Pra soprar quando calor

Acalmou a prenha-astral

E beijou-lhe com amor.

(13)

[Aliás, o sentimento

Que acabo de citar

Foi apenas nomeado

Muito tempo após chegar

A tão esperada cria

Como logo vou narrar...]

(14)

O feto desenvolveu-se,

Era grande e saudável,

Tão redondo e pulsante!

E a mãe de tato afável

Acarinhava a barriga

De maneira muito amável

(15)

De repente houve um estrondo

A mulher soltou um grito...

Uma água caudalosa

Pingou do ventre contrito

Cheia de sal e de vidas

(Eis o Mar aqui descrito)

(16)

Logo após a enxurrada

veio então a dor imensa

pois o sólido doía

de maneira muito intensa

a mulher acocorou

fez dos braços uma prensa

(17)

[uma música ao longe

começou-se a escutar...

canto lúdico entoado

uma flauta a tocar

o Senhor entrou em transe

começando a meditar]

(18)

E ao mesmíssimo tempo

que a mulher empurrava

quanto mais forte a dor

mas a música aumentava!

E uma ponta de luz

do seu sexo emanava.

(19)

Finalmente um grito mudo.

Era um “ai” do coração

Uma gota de suor

Gotejou na imensidão

E o Mundo foi expulso

Com enorme profusão...

(20)

As cores se misturavam

Água e terra se fundiam

Com o fogo e o ar

As vidas verdes cresciam

Do mar apontavam bípedes

Caminhantes, que caminham

(21)

A mulher aliviada

Ali mesmo adormeceu

Com o peito apertado

Que nem ela entendeu

Queria afagar o Mundo

Tê-lo sempre ao lado seu

(22)

Era o Amor que ali nascia

Com tamanha intensidade

Aliou-se à Alegria,

Ao Respeito, à Verdade,

Ao Carinho, ao Cuidado,

Calma e Serenidade.

(23)

Aliou-se às Virtudes

Que em verdade brotavam

Dos seios da Mãe do Mundo

(e) as bocas dele sugavam

o Leite cheio de Bem

e assim se saciavam

(24)

O Senhor , pra terminar

sua imensa aquarela

fez com a ponta do dedo

mais uns pontos nessa tela

fez o Sol, astro maior

bola de fogo-amarela

(25)

E assim o Mundo segue

com o Mal e com o Bem

pois a maldição do Vento

fez-se fato aqui também

mesmo que sua mãe vele

a tristeza vive aquém

(26)

Brisa negra ainda sopra

dentro do ouvido humano

empoeira corações

e sobre a paz joga um pano

faz a guerra olho a olho,

Dente a dente, mano a mano.

(27)

Quase ao fim, urge lembrar

O Mundo é bom em essência

Fruto de vontade pura

Colorindo a existência

Foi nutrido com o líquido

Da bondade em excelência

(28)

Há desgraças é verdade

Mas há muita alegria

Seus filhos conhecem dor

Mas o Amor em primazia

Reina no fundo do ser

Em cada um, cada dia.

(29)

À mulher que aqui me pôs

Dedico essa poesia

Ela em muito se parece

Com a mãe que eu descrevia

Fato é feita da brancura

Do Leite que escorria.


(30)

Com ele me amamentou

Me cuidou, me fez sorrir

Fez chorar e fez calar,

Levantar após cair

Me mostrou o alicerce

Para a vida construir.

(31)

Já vou acabando então

Versando assim o que sinto

*Entrou na boca do pato
Saiu na boca do pinto

Pra terminar quem quiser

Se vire e conte mais cinco!

*(adaptação de versos ouvidos na infância, depois minha de avó, ou minha mãe, contar uma história)


_______________________________________________________________

Corpo-Urb

Caminhando pelas ruas da cidade

O Caos me perpassa o ventre

Os meus cabelos sã fios de alta tensão

Conduzindo uma energia perfumada

Que conecta-se às narinas-tomadas

Que levam até o cérebro

Que processa a imagem-flor

Me péralelepípedo

Calçado

No salto-asfalto

Pisoteia o que ainda resta da terra batida

Desvia

Dos que, descalços,

Ainda pisam na terra batida.

O Caos perpassa

e se instala em meu ventre

dentro

entre

um órgão e outro

ocupa espaço

me fazendo arrotar palavrões do caralho,

puta que pariu não aguento mais tudo isso.

Erguida

Na copa

Eu-máquina bebo do óleo preto

Que me re-faz funcionar de novo.

_______________________________________________________________


"Metáfora do Desprezo"

...O que eu vejo daqui, nem é tão belo
É azul, sim, verdade
meio blue, melancólico, dá pena.

O que eu vejo, não é só água...
bastante água, mas não é só.

O que eu vejo?
fome, sede...
pouca poesia.

Vejo rivais, que nem se olham,
e apontam, armados, a quem encostar...

Vejo uma Amazônia,
Abaixo do teu equador,
perdida, esquecida,
entregue a selvageria de... madeireiros.

Eu vejo....
Um buraco,
na tua camada de hormônio,
que me faz perder o tesão.

_______________________________________________________________


O Seixo Encantado

(Mariane Bigio Nascimento)

(1)

Pelo ir e vir das ondas

Depois de seca a maré

Um seixo esverdeado

Encrustrou-se em meu pé

Qual formoso e brilhante!

Será pedra ou diamante?

Chegou a cegar-me, até!

(2)

Revolto o Mar cresceu

Intentava me engolir

Afastei-me de um salto

Seu rancor eu pude ouvir

Eu roubara um tesouro

E tão forte qual um touro

Vinha ele me extinguir

(3)

- Grande Azul! sou filho teu!

por que queres me matar?

Dou-te flores em dezembro

E a ti venho louvar

Uma pedra, tão pequena

Perdoai – me! Tenha pena!

Mas com ela irei ficar

(4)

Tive um sonho em que usava

Um colar cujo pingente

Era esse seixo verde

Que reluz tremendamente

Garantiu-me muita sorte

Fez-me o homem mais forte

E o mais inteligente

(5)

Avistei uma jangada

A dez braçadas dali

A mim se oferecia

Fui a ela, não temi

Toras de madeira bruta

Naveguei ´té uma gruta

Dentro da qual me meti

(6)

E ali estupefato

Eu olhava o local

Tanto brilho! Tantas cores!

Nunca vi nada igual

As paredes e o teto

Tudo de seixos repleto

Oh! Visão celestial!

(7)

Foi então, caros amigos

Que a gana dominou

Sem pensar, recolhi outros

O que eu tinha não bastou

Quando, tarde, dei por mim

Pensei : este é meu fim!

A jangada o Mar levou

(8)

E como achasse pouco

Algo mais aconteceu

As paredes se racharam

Tudo ali estremeceu

Grandes blocos despencaram

E à passagem cercaram

Para desespero meu

(9)

Eu fiquei ali sozinho

E quase sem enxergar

Não fossem as tais pedrinhas

Que teimavam em piscar

Quando ouvi um leve canto

Cessou todo o meu pranto

E me fez regozijar!

(10)

O coro se aproximava

Na água um farfalhar

Eram vozes femininas

Em um tom mui singular

O seu canto era um conto

Que narrava o confronto

Entre os homens e o Mar

(11)

- Nós somos as moças d´água

Somos filhas d´oceano

Nosso pai há muito sofre

Com o poluir insano

Roubos e exploração

Que causam degradação

Por parte do ser humano

(12)

Enquanto cantarolavam

As moçoilas sinuosas

Arrancavam uma dupla

De pedrinhas bem lustrosas

E eu a mim perguntava

O que ali se passava

Com as belas escamosas

(13)

Cada uma com um par

De seixinhos delicados

Colocaram-nos nas faces

Onde foram fixados

- Todas cegas, somos nós

Disseram a uma voz

Os olhos iluminados

(14)

E assim me explicaram:

-Nós apenas enxergamos

Quando pares dessas pedras

Da caverna retiramos

Os homens, sim, as usurpam

E as ondas as deturpam...

E cegas nós definhamos!

(15)

Todo dia ao pôr-do-Sol

Nos chegamos a nadar

Apanhamos nossos “olhos”

Nossas pedras de “enxergar”

Devolvemos na aurora

Ansiosas pela hora

De, enfim, poder voltar

(16)

“É só um pequeno seixo”

Podes tu até pensar

Mas se todos o fizerem

Qual! Nenhum há de restar!

Será sempre escuridão

Não teremos mais visão

Eterno lamuriar

(17)

Eu senti-me tão malvado

Achei-me entristecido

Fiz sofrer tão belos seres

Filhas desse Mar querido

Mas lembrei-me do colar

Pus me logo a chorar

- Ai meu Deus estou perdido!

(18)

Eu lhes falei do meu sonho

Do colar que eu queria

Senti ser o meu destino

E usá-lo deveria...

Só assim o meu futuro

Não seria obscuro

Sim repleto de alegria!

(19)

Uma moça então me disse

- Caso resolvas manter

Uma pedra só que seja

Certamente irás morrer

Nosso pai é vingativo

Teu futuro é negativo

Se tu não a devolver

(20)

- Eu cá tenho uma idéia

Disse uma das mocinhas

- Tu farás o teu colar...

Chega dessas ladainhas!

Mas em cada Sol poente

Solte-o bem na corrente

Onde nadam as tainhas

(21)

Pelo pai nós te juramos

E Em cada Sol nascente

Terás o teu seixo verde

Voltando pela corrente

Mas tu tens de prometer

Além disso,proteger

Nosso Mar e nossa gente

(22)

Falarás aos conterrâneos

Que as águas são sagradas

Não permitas nossa flora,

Nossa fauna, depredadas

Tu serás um guardião

Barrarás qualquer ladrão

Nos deixando descansadas

(23)

Eu, é claro, assenti

Apesar de atordoado

Estava muito ciente

Do que havia acordado

Eu garanti devolver

A pedra no entardecer

E do Mar ser um soldado

(24)

E assim aconteceu...

Fui morar perto do Mar

Sentindo a brisa fresca

Nas manhãs, ao acordar.

Ali fiz o meu plantão

E por tudo, qual um cão

Eu me punha a zelar

(25)

O seixo (se) ia e vinha

Por aquela correnteza

Nosso trato foi cumprido

Disso tenham a certeza

O colar me fez feliz

Não do jeito que eu quis

Mas segundo a natureza

(26)

Com uma das moças d´água

Finalmente me casei

Num barquinho carregado

De flores que cultivei

Pelas tardes nos amamos

Quase sempre celebramos

O dia que a desposei

(27)

Sempre quando é Lua cheia

Na praia nos agrupamos

Fazemos a grande roda

E pelas mãos nos ligamos

Um canto a entoar

(a fogueira a crepitar)

E juntos nós cirandamos...

* pedrinha, oiá, pedrinha,

pedrinha do meu colar

teu brilho cegou-me os olhos, pedrinha,

lá no fundo do Mar...
** Iaiá me dá teu remo

teu remo pra eu remar

meu remo caiu, quebrou-se Iaiá,

lá no alto do Mar...

pedrinha, oiá, pedrinha...

*versão autoral.

**versão original da ciranda de domínio público.

_______________________________________________________________

Ode Carnavalesca

A troça vem de longe vassourinhas
Paralelepípedos,chão,rua
Acordes tão agudos...rasgam,pua
As vozes cantam forte as marchinhas
Soprano das “senhouras” e mocinhas
Entoam o coro tradicional
À frente o estandarte original
Representando o bloco que euforia
E tudo só finda ao raiar do dia
Brincantes! foliões! é carnaval!

Caboclos com as lanças adornadas
Maracatus da baques variados
Os baques soltos e baques virados
Das negras com calungas levantadas
Dos reis e das rainhas coroadas
Encanto do cortejo imperial
Alfaias na batida principal
E o povo se sacode na folia
E tudo só finda ao raiar do dia
Brincantes!foliões!é carnaval!

O trôpego Monarca se balança

O cetro carregado de 'fervência'

Brilhante, simboliza a veemência

A glória reverbera em sua pança

Passistas abrem ala nesta dança

A fantasia faz-se ali real

Num ritmo cadente sem igual

Completa miscelânea de alegria

E tudo só finda ao raiar do dia
Brincantes!foliões!é carnaval!



Em breve os textos de Felipe Jr. e José Terra

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Conto - Cotidinada (Alexandre Melo)

Cotidinada

Um passarinho acorda a aurora, faz um vôo leve, mas firme e pousa no verde a procura de cheiros. Algo se mexe entre a folhagem e ele tange um salto-vôo astuto e de vertigem.

Uma folha seca e enrugada cai no canal opaco e dá vida a círculos perfeitos.
Uma felina surreal mia doce, mas energicamente. A esta altura ela roça os móveis e pernas.
Uma mosca pousa no delicioso bolo que Ofélia fez, mas não vai degustar. Ofélia tem olhos sem brilho. Ela só pensa em sua casa. E odeia avental.
Numa janela anônima de um prédio qualquer pousa um pombo pardo. Igual a tantos outros, mas só aparentemente (pombos são como tribos).
Uma lagartixa ama o muro que a camufla. Neste mesmo muro insiste em fruir lenta, mas vigorosamente, uma flor. Ela parece sorrir (Por ela? Em mim?)
Numa várzea próxima barrigas inchadas e pernas esqueléticas subjugam uma impraticável bola. Todas trejeitam ares de estrelas do showbisness. Sob seus pés formigas-soldados enfrentam seu mais sangrento massacre. A colheita ia farta.
A felina sobe na mesa e se deita sobre os papeis. Ela me exige. Preciso deitar a Bic.


Alexandre Melo

Poemas - Renatinha Santana


A CONCHA (OSTRACISMO)

Estou com uma pérola
Na garganta
Presa, incômoda
Sob espumas vago
Silenciosa e nua
Somente a esperar
Amor,
Sou uma concha que chora
Sal e maresia
Um brilho oculto
No fundo,
Te espera!

__________________________


Angel Blues

Angel Blues desceu do céu

Tocou um jazz

Passou o chapéu

E arrecadou pecados a granel.

Ao retornar

Tropeçou

Em nuvens de sal

Coloridas

E Deus disse: - Ficas nessa vida?

Deu de ombros

E fez comércio

Dos seus pecados

Do balcão um beijo pintado

Solo para o blues rasgado

Do Diabo.


________________________________


Como Diria Leminski

Chamei

Vamos conversar

Apenas

Com

Ver

Sar

Mas, lembra:

Não sou toda ouvidos

Levo também

Boca

Sussurros

Pedidos.

Poema - Beth Brito

TIROCÍNIO


O VERBO TEM VOZ:

È Amar, Decidir, Querer

MAS PRECISA DE ALGUÉM QUE ÀS VEZES FALE POR ELE...

Escolher, Prosseguir, Lutar

ÀS VEZES É SUJEITO:

Trabalhou, Chorou. Conseguiu

COM ELE A FRASE FICA ESPERTA!

Entendo, Busco, Avanço

E TORNA-SE VIGOROSA:

Creio, Posso, Acerto

NOS REMONTA EM SONHOS...

Pensar, Vencer, Criar

E indago a verbalizar:

“O que farei pra a Poesia não acabar?”

Beth Brito

Dezembro de 2008

Conto - Carne de sol (Ana Airam)

Carne de sol

De um lado para o outro da praia o suor corria pelo rosto. Do maxilar, por entre os pelos da barba, até o queixo e caía, fazendo todo o percurso em quinze segundos. A areia chupava suor, o sal se unia a areia.

Washington. Entre os outros é referência. Homem de praia. Grades de cerveja na cabeça. Tipo que é só braço, só peito. Mãos que passam áspero. Virou homem de baixo de sol. Não acha que mudar de vida é algo a se pensar. Sem planos futuros nem grandes riquezas. Folga as quintas-feiras e uma rinha de galo. Não faz apostas. À noite, forró daqueles de dançar se esfregando. Do chamego ao motel do motel ao dinheiro, reservados pra ocasião. Não saía do eixo. Não repetia mulher, não queria filhos. Tinha dotes pra fazer bem feito qualquer cria.

Washington, em inglês. Homem de briga de areia, da briga diária da areia e dos pés descalços, estivando grades de cerveja geladas. Pagamento por hora. O joelho vai ao chão, a grade ao joelho, do joelho ao ombro. Corpo erguido novamente, do calçadão à areia, o movimento se repete. Um clássico dos domingos. Quanto mais sol mais suor, mais Washington dentro da areia, mais pele queimada, mais cerveja.

Ganhava o churrasquinho, o cachorro quente, o caldinho de peixe. Ganhavam todos em dias de Washington. Sede que dava! Calor que era calor de sol e excitação. Coisa de praia, de biquíni, de sunga molhada. Maresia elétrica até as quatro da tarde. Às quatro e meia, topava tomar uma ou duas ou mais, dependeria do rabo de saia que o convidasse. Disputa pela carne de sol. Disputa pelo Homem. Era quando ele escolhia. Escolhia pelo porte, pela bunda, pelo fio dental, por outra carne de sol, pra roer até o osso.

Salgado, quente, não pode evitar. Escolha errada. Faca no peito fura e retalha. Sangue na areia mancha marrom. É traição. Corre o traído quase linchado pela praia. Fica Washington, carne abatida. Ninguém comeu mais ninguém.

Ana Maria Pereira

“Carne de Sol” da trilogia de contos “ Farofa”.

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Nós Pós - Publicidade (by Alexandre Melo)

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Nós Pós com mais um local de eventos

Clique para ampliar

Mais um ponto de realização de eventos mensais do Nós Pós!

Agora, além do Bar Burburinho, a produção Nós Pós tem um novo espaço para divulgação da nova literatura pernambucana: Sorveteria Santo Doce, (Rua 12 de Outubro, 15 - Aflitos)!

O primeiro evento será dia 22/01, às 19h.

É grátis!

Não perca!

Nossa vocação é estimular cultura!

Segue mapa de localização da sorveteria:

Clique para ampliar

Nós Pós vira tema de aula de turma de Pós-graduação da FAFIRE


O projeto Nós Pós - português suave virou tema de estudo no curso de Pós-Graduação em Cultura Pernambucana da FAFIRE.

A turma da disciplina Literatura Pernambucana,
junto com seu professor, Lourival Hollanda (foto à direita), escolheram o Nós Pós como movimento representativo do que está se fazendo de substancial em permos de literatura pernambucana hoje.

O escritor Cristiano Aguiar (foto à escquerda) foi convidado pela produção para falar sobre sua visão do projeto.

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Imagens do último evento do ano - Natal Suave (Bar Azulzinho - Várzea)

Roberto Queiroz (Apresentador)

Edvaldo Bronzeado

Marcus Antônio Jerivá

Franzé Matos

Aldo Lins

Renata Santana

Rafa da Rabeca e Cia.

Fernando Farias

Alexandre Melo, Ana Maria, Fernando Farias, Danusa Montenegro,
Alex Guterres e Jhonatan Sodré.



Ana Maria Pereira, Danusa Montenegro, Alexandre Melo, Aldo Lins, Renata Santana, Roberto Queiroz, Franzé Matos, Fernando Farias e Jhonatan Sodré.

Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Nós Pós na Revista Continente

A Balada do Nós Pós

Grupo organiza encontros literários com o compromisso
de
divulgar a obra de escritores contemporâneos




Tudo começou há pouco mais de um ano, quando, ao retornar de uma temporada em São Paulo, o escritor Artur Rogério teve a idéia de organizar algo como uma série de “baladas literárias”: ocasiões cuja tônica repousa na apologia do bom e velho bar como profícuo espaço de intercâmbio cultural. Externada a idéia a alguns amigos e parceiros, organizou-se a primeira reunião daquilo que viria a se tornar o grupo Nós Pós, realizada em setembro de 2007. Participaram deste primeiro encontro, além do próprio Artur, Alex Guterres, Ricardo Wanderley, Igor Pires, Samir Benjamim, Aroma Bandeira, Alexandre Melo, Ana Maria Pereira, Danuza Montenegro e Jhonatan Sodré, entre outros. Destes, apenas os quatro últimos permanecem como núcleo fixo de produção.

Naquele momento fundante, foram traçadas algumas das linhas-mestras que norteiam o grupo até o hoje, quais sejam: o compromisso com a divulgação do que se tem produzido em termos de literatura e demais artes em Pernambuco; o fomento da reflexão em torno desta mesma produção; e a promoção da permuta criativa entre sujeitos que, independentemente dos nichos estéticos em que se encontrem inseridos, compartilhem o apreço por uma ou mais expressões artísticas. E não só: acertou-se também o primeiro evento, que ocorreu em outubro daquele ano e teve como base o boteco Quintal do Lima, em Santo Amaro. Além dos próprios integrantes, participaram da estréia, como convidados, o poeta Jailson Marroquim e o escritor Raimundo Carrero. O público de então era composto basicamente por pessoas próximas aos membros do coletivo e alguns fregueses costumazes.

Contudo, não tardaria para que a boa nova se espalhasse, de modo que já no terceiro encontro o público havia se expandido consideravelmente. Passada a sua sexta edição, o evento se transfere, em virtude, sobretudo, do quesito localização, para o bar Burburinho, no Recife Antigo, onde permanece até hoje, com periodicidade mensal. Para Alexandre Melo, responsável pela produção dos encontros, “a mudança para o Burburinho foi positiva, pois a sua localização é mais acessível, a área é mais movimentada etc. Isso contribuiu para aumento do público. A estrutura interna do bar nos permite climatizar mais o evento (o que consideramos muito importante – decoração, ambientação e iluminação), e que contribui para a grandiosidade do ‘espetáculo’”.

Leia a matéria na íntegra na edição 96 da Revista Continente.



Leia no site da Revista Continente

Revista Eita! - Download


REVISTA EITA! Nº 1

A Revista Eita! surgiu como uma proposta experimental de publicação e como um espaço de inovação e renovação nas artes visuais e nos textos literários. Sua publicação contempla as mais diversas linguagens artísticas contemporâneas, sob a coordenação editorial da Gerência de Literatura e do Centro de Design do Recife. Ela foi pensada, discutida e elaborada coletivamente com representantes dos diversos segmentos artísticos da Secretaria de Cultura que formam o conselho editorial.

Faça aqui o download da primeira edição da Revista Eita!


Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

NÓS PÓS EM NOVO ESPAÇO COM EVENTO NATAL SUAVE



NÓS PÓS – NATAL SUAVE

A Produção Nós Pós - português suave segue sua jornada de realização de eventos. Um dos objetivos pretendidos dentro deste processo de expansão da cultura pernambucana é a rotatividade de eventos dentro da Região Metropolitana do Recife; manter a regularidade das apresentações e estar sempre buscando novos espaços é uma forma de ir conquistando novos públicos e, com isso, disseminar cada vez mais a literatura e as artes feitas hoje no estado.

E isto começa a se concretizar, com o evento Natal Suave, que será realizado no Bar e Restaurante Azulzinho (Av. General Polidoro, 708 - CDU), no dia 10/12/08, a partir das 19h.

Neste evento teremos a participação de grandes nomes de nossa literatura como Lucila Nogueira e Aldo Lins, o jovem e talentoso músico Marcus Antônio Jerivá, que vem usando a literatura como novo meio de expressão de sua arte, Renata Santana, estudante de jornalismo e integrante da equipe de produção do programa Café Colombo, da Rádio Universitária e Franzé Matos, estudante de Filosofia da UFPE e Carlos Ferraz. O músico Rafa da Rabeca participará do evento e aproveitará o ensejo para ensinar ao público a tradicional dança do cavalo marinho.

O apresentador convidado pela produção Nós Pós para esta edição é o escritor Roberto Queiroz.

O evento Natal Suave tem apoio do Departamento de Letras da UFPE, Produtora Sete Filmes, Roberto Queiroz, do Bar e Restaurante Azulzinho e de A.M. design Gráfico.


SERVIÇO:

Evento: Natal Suave

Local: Bar e Restaurante Azulzinho (Av. General Polidoro, 708 - CDU)

Data/Hora: 10/12/08 - 19h

Couvert: R$ 3,00


A Produção Nós Pós